Quarenta Anos Após a Revolução dos Cravos

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Portugal como Modelo para um Novo Socialismo?

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25-abril-cravo“No meu país há uma palavra proibida.
Mil vezes a prenderam mil vezes cresceu.”
(Manuel Alegre)

Tornar-se-á evidente,
 que o mundo há muito sonhava com algo, do qual ele apenas precisa possuir a sua consciência,para ele o possuir na realidade.”
(Karl Marx)

Nota preliminar
Neste texto, as palavras “socialismo” e “comunismo” são usadas como sinónimos. Eu vejo a sua diferenciação e a fenda entre ambas, que foi esticada entre os seus representantes, como já não sendo apropriada hoje em dia. Este artigo dirige-se a todos os interessados na justiça, solidariedade e liberdade.

Parte I: Ditadura e Revolução em Portugal – História de um Sonho

Lisboa, Dezembro de 1960. Num bar, dois estudantes brindam – “À Liberdade!” Estes são espiados, denunciados e por fim condenados a sete anos de prisão. Na ditadura militar portuguesa, a palavra “liberdade” é proibida. Foi a leitura deste incidente no ‘London Times’ que levou Peter Benenson, advogado, a fundar a Amnistia Internacional. Em Portugal, faltariam ainda treze anos para o final da ditadura. A 25 de Abril de 1974, tropas esquerdistas dirigem-se para Lisboa e, em poucas horas, assumem o controlo de todos os lugares estratégicos do país. O chefe de Estado e os Serviços Secretos entregam-se após uma breve resistência. Quarenta e oito anos de ditadura terminam. O sonho do socialismo acorda.

Hoje, Portugal encontra-se novamente sob uma ditadura – a ditadura do capital, como professam inúmeros graffitis nas paredes. Medidas de austeridade, dívida e regras fiscais pressionam sobretudo os trabalhadores, os pequenos empresários, os artesãos e os agricultores. A onda de privatizações empurra massas de pessoas para o desemprego. Hoje, o número de jovens que abandonam o país é quase tão alto como durante a ditadura – naquela altura, estes fugiam do serviço militar e da prisão, hoje fogem da perspectiva de um futuro sombrio.

Mas o país e as pessoas não esqueceram completamente o sonho da liberdade, igualdade e socialismo. Nos últimos anos, depois dos grandes protestos contra a Troika, os primeiros grupos mudaram-se para o meio rural, para construir alternativas – cooperativas para a subsistência regional e para o apoio à vizinhança; “Ajudadas” (acções de apoio mútuo); mercados locais legais e ilegais para troca de produtos fora do sistema monetário; “Bancos de Terra” para a transferência de propriedades, dos proprietários para as pessoas que não têm terra; academias cidadãs para a transmissão de conhecimento. Por mais pequenas e cautelosas que estas tentativas iniciais possam ainda ser, estas contêm um grande potencial. O emergir de um novo mapa de Portugal é vislumbrado por pensadores visionários – um mapa de ciclos económicos regionais, de subsistência moderna, regiões ecológicas e aldeias-modelo, que se opõem ao mundo globalizado com uma outra realidade.

Numa época em que o sonho do socialismo parecia ter terminado – com o declínio do Bloco do Leste e a queda do Muro de Berlim, e com a integração dos seus activistas no sistema capitalista – verifica-se que o socialismo é um sonho da humanidade, e um sonho da humanidade não pode ser eliminado. Este emergirá repetidamente, até que seja manifestado. Ainda assim, tal poderá suceder de uma forma diferente daquela que os seus primeiros teóricos tinham previsto.

O Capitalismo não é o estado final da civilização. Um sistema orientado para a exploração e para o lucro não pode durar a longo prazo. A sua violência inerente destrói tudo o que vive e que tem valor; destrói os recursos e as necessidades de vida das pessoas. Em todo o planeta, os jovens erguem-se contra esta realidade. O colapso do sistema é apenas uma questão de tempo – de um curto espaço de tempo.

Surpreendentemente, nos países mais afectados pela crise, surge actualmente uma possível alternativa: um socialismo humano, em regiões e comunidades autónomas interligadas, em autodeterminação e cooperação com a natureza. Um socialismo assente na confiança, no qual as pessoas podem experienciar comunidade, antes de se comprometerem na socialização da produção. Um socialismo assente na auto-organização, que subverte os sistemas de globalização capitalista porque já não se encontra mais em cooperação com eles e porque já não oferece um alvo aos seus poderes opositores. Assim que se tornam visíveis os primeiros modelos funcionais, este espalha-se como um incêndio pelos jovens do mundo.

Este movimento, como qualquer outro, desenvolverá o seu potencial revolucionário na medida em que os seus defensores e activistas se tornarem conscientes do sonho que os interliga a todos.

25 de Abril de 1974 – O “Dia mais Longo”
“Em cada esquina, um amigo. Em cada rosto, igualdade. O povo é quem mais ordena”, cantou Zeca Afonso na famosa canção proibida “Grândola Vila Morena”. A letra da música expressava os sentimentos das multidões de trabalhadores rurais do Alentejo, que há muito sofriam sob a dominação feudal dos grandes proprietários agrícolas. Amargamente pobres, aqueles precisavam de se submeter como trabalhadores à jorna, sem direitos. Dezenas de milhares acabaram nas prisões de tortura da famosa «PIDE», a polícia secreta, apenas por darem voz à sua opinião. Não existia a liberdade de reunião. Quem, estando na rua, falasse com mais do que uma pessoa de cada vez, era suspeito de conspiração. Portugal tinha a taxa de mortalidade infantil mais elevada da Europa. A educação era negada ao povo; um terço da população portuguesa era analfabeta. Os filhos do país lutavam em guerras coloniais sangrentas e anacrónicas – em Moçambique, em Angola e na Guiné-Bissau. Nos últimos anos da ditadura, o tempo de serviço militar obrigatório era de quatro anos. Hoje, vemos os veteranos da geração anterior sentados nas praças, ao sol, em frente das suas casas; homens envelhecidos, traumatizados e frequentemente mutilados. Sem uma prática diária de solidariedade e de ajuda mútua nas comunidades das aldeias, sem o sonho de uma vida diferente, teria sido para estes muito difícil viver e sobreviver face à repressão, à espionagem e à fome.

Naquela quinta-feira, há quarenta anos atrás, quando a canção proibida “Grândola” ressoou na estação da Rádio Renascença, pouco depois da meia-noite, os jovens oficiais da ala esquerda do Movimento das Forças Armadas já se encontravam a caminho da capital. A operação “Fim do Regime” tinha começado. Ao início da manhã, ocuparam instalações centrais estratégicas do Estado. As tropas militares que se aproximavam, juntavam- se em solidariedade. Uma multidão de pessoas em celebração dava-lhes as boas-vindas nas margens das estradas, oferecendo maçãs, pão e cravos vermelhos aos soldados que passavam. Desta forma o povo legitimou o golpe, e foi assim que a Revolução ganhou o seu nome. Ao final da tarde, o Chefe de Estado Marcello Caetano demitiu-se. Apenas diante do Comando Central da PIDE houve troca de tiros, na qual foram mortos quatro manifestantes. Na manhã seguinte, a maldição tinha terminado.

Seis dias mais tarde, meio milhão de pessoas celebraram, pela primeira vez nas suas vidas, o 1o de Maio nas ruas de Lisboa. Todos estavam presentes. Às cidades chegavam camiões cheios de trabalhadores provenientes dos subúrbios. Os autocarros e os comboios transbordavam de bandeiras vermelhas. As pessoas dançavam nas ruas. Finalmente, o país pertenceria àqueles que cultivavam a sua economia. Finalmente, os trabalhadores poderiam estar à frente das fábricas. A fome, a pobreza e o trabalho em condições indignas chegaria ao fim. A solidariedade e a comunidade poderiam prevalecer onde até agora tinha reinado apenas o medo e a opressão. Em breve, as colónias deveriam ser libertadas. As prisões foram abertas, e os prisioneiros políticos foram soltos. Dissidentes, desertores, e líderes de esquerda regressavam ao seu país natal. O poeta e lutador da resistência, Manuel Alegre, foi recebido com panfletos que citavam as suas próprias palavras: “Voltaremos em Maio, quando a cidade se vestir de namorados e a liberdade for o rosto da cidade”.

O sonho de liberdade e justiça, de autonomia e autodeterminação, de propriedade comunitária e responsabilidade comum parecia tornar-se realidade. Para muitos dos que celebraram este dia, este sonho tinha um nome: Socialismo.

Retrospectiva sobre o Início do Século XX
Desde o início do século que esta ideia já pairava sobre a cabeça das pessoas. Entrou no país com os primeiros caminhos-de-ferro, que transportavam cortiça de Portugal para o Norte da Europa, chegando a uma atmosfera social borbulhante. No ar sentia-se o cheiro da mudança. Enquanto os barões dos cereais do Alentejo ainda celebravam nas suas comemorações extravagantes, entre os trabalhadores rurais passavam de mão em mão mensagens subversivas de revolução e comunismo, de anarquia e socialismo. As notícias de um país governado por lavradores e trabalhadores, onde todos tinham o direito à terra, soavam como uma cantiga do paraíso. A noção de uma vida melhor ganhou um nome concreto; uma teoria que abriu o mundo ao povo e que os ligou a um processo global. Tal como sempre que as pessoas são exploradas e menosprezadas durante um longo período de tempo, foi o conhecimento que foi capaz de mudar a sua situação e a sua auto-imagem. Abriram-se mundos de novas visões. O catolicismo, o nacionalismo, e o feudalismo – os alicerces das sociedades anteriores e actuais – foram revelados como ideologias de dominação.

Subitamente, o trabalhador rural português deixou de se ver a si próprio como o elo mais fraco da cadeia de poder social e, em vez disso, passou a ver-se como parte de um movimento global. Foi um despertar que libertou novos poderes, coragem e criatividade para a resistência. Grupos de trabalhadores desviaram remessas de colheitas e declararam o lucro da sua venda para si próprios. Realizaram-se experiências de vida anarquista, que exercitavam a liberdade, a cultura naturista e a subsistência.

Mas ainda era cedo demais. A oligarquia das famílias dominantes era ainda demasiado poderosa. Em 1926, os militares tomaram o poder através de um golpe, depois da república ter durado apenas dezasseis anos. Em 1932, o asceta e solitário professor de economia António de Oliveira Salazar subiu à liderança da ditadura militar, com as suas medidas de austeridade. O seu Estado Novo promovia a disciplina, a severidade e a piedade. “Orgulhosamente sós” era o seu mote; princípios absolutamente não portugueses pareciam ter ocupado o poder. A auto-suficiência nacional, a censura absoluta e a defesa feroz do império colonial eram as características deste Estado uni-partidário que ludibriava o povo com “Fátima, Futebol e Fado”. Durante estas quase cinco décadas de ditadura, diversas tentativas de resistência foram frustradas.

O Despertar e o Fracasso da Revolução dos Cravos
Agora, em 1974, uma nova sociedade estava prestes a surgir, de mãos dadas com a solidariedade e a justiça. Os líderes socialistas e comunistas que regressaram, entraram no estádio juntos, num gesto de união, entusiasticamente saudados pelo povo com a frase “O povo unido jamais será vencido!”.

Uma nação inteira pareceu radicalizar-se. Empresas e bancos foram nacionalizados. Estudantes e professores, que até recentemente eram espiados e perseguidos pelos seus directores, tiraram estes últimos dos seus lugares, sem cerimónia, e organizaram a educação por si mesmos. Pensamentos, ideias e grupos que tinham sido proibidos durante meio século, explodiram como fogo-de-artifício. Pequenas facções da Esquerda radical escreviam os seus slogans e crenças pelas paredes. Por todo o país formaram-se comissões de moradores, que de modo auto-organizado tomaram conta dos bombeiros, das obras nas estradas, e de outras funções negligenciadas. Os trabalhadores expulsaram os proprietários opressores das fábricas. A Reforma Agrária, seguindo o exemplo dos Soviéticos, nacionalizou as terras. Os latifundiários foram expropriados. Os trabalhadores rurais fundaram centenas de cooperativas em Herdades e aldeias, sobretudo no Sul do país. Os campos eram trabalhados em conjunto, e os lucros eram partilhados colectivamente. Vindos de diversos países, chegavam voluntários para ajudar. Durante um curto intervalo de tempo, Portugal tornou-se a “Meca” da juventude europeia que sonhava com o socialismo.

Mas os portugueses não tiveram em conta o resto do mundo. 1974 foi também o ano em que outras ditaduras militares do Sul da Europa entraram em crise, tal como em Espanha, ou chegaram ao fim, como na Grécia. Foi o clímax da Guerra Fria. Cada conflito, cada revolta, tornou-se um conflito representativo entre o Ocidente e o Leste. O Ocidente não queria apoiar ou tolerar um país socialista na Europa. Uma nova Cuba, um novo Vietname, ou um novo Chile tinham de ser evitados por todos os meios.

Foi assim que o conflito Este-Oeste também dividiu a louvada união do povo português. Os socialistas eram crescentemente influenciados pelos sociais-democratas europeus, e adoptaram o seu mote: “Reformas em vez de Revolução”. A União Soviética apoiava abertamente o Partido Comunista Português; os seus seguidores eram maioritariamente do Sul. No Norte, no entanto, uma máquina bem oleada de propaganda anti-comunista foi iniciada, sendo esta financiada e organizada, segundo muitas pessoas suspeitam, pelos Estados Unidos da América.

A outra razão para o fracasso da revolução veio de dentro – era impossível recuperar, do dia para a noite, das marcas deixadas por cinquenta anos de ditadura. As feridas internas não foram abordadas e saradas, como é ainda verdade actualmente em muitos casos. A exaltada união do povo quebrou-se sobretudo nos lugares onde não existia uma visão real, nem a experiência de um socialismo vivido, de verdadeira comunidade. Como poderiam eles ser capazes de construir cooperativas e de gerir propriedades comunitárias se não sabiam como gerar confiança uns entre os outros? Como poderiam liderar sem dominação? Como poderiam tomar decisões democráticas sem encalhar em milhares de discussões? Como poderiam lidar com os temas humanos omnipresentes, tais como a competição e o ciúme? E como lidariam com os conflitos de forma saudável, sem dominação nem opressão? Trabalhadores rurais não educados tornaram-se, subitamente, responsáveis por tarefas para as quais não estavam de todo preparados. Os governos, em constante mudança, encontravam-se ainda rodeados por redes económicas que funcionavam de acordo com as leis do capital, e não apoiavam a Reforma Agrária. O entusiasmo e a boa vontade não conseguiram, a longo prazo, acompanhar os desafios da independência.

O slogan “Fascismo nunca mais”, o qual ainda hoje é ouvido com frequência nas manifestações, foi o maior denominador comum com o qual Portugal conseguiu concordar, após décadas sem liberdade de expressão e de informação.

Após a última revolta no “Verão quente de 1976”, a sociedade portuguesa regrediu para um modo de vida aburguesado. O socialismo foi declarado como um objectivo de Estado na Constituição, mas este manteve-se uma fórmula vazia. O capital reconquistou, passo a passo, o seu poder. A Reforma Agrária foi anulada. Na retirada das quintas, deram-se episódios amargos e violentos. Os agricultores de pequena produção perderam os frutos do seu trabalho e a terra que tinham acabado de cultivar. Às cooperativas remanescentes – locais de assembleia e de eventos culturais dos aldeãos, nos quais os habitantes podiam trocar localmente os seus produtos – foram retirados os benefícios legais e, consequentemente, a sua base de existência. Desta forma, perdeu-se uma peça central da revolução.

Fim da Linha: Capitalismo
O Ocidente tinha ganho. A entrada para a União Europeia, em 1986, foi vendida ao povo português como um caminho para a segurança e para a prosperidade. O país, ainda bastante empobrecido, tornou-se rapidamente no aluno exemplar de Bruxelas e conformou-se avidamente com todos os requisitos impostos. Um destes foi uma persuasiva mudança na agricultura. Enquanto até aqui os grandes campos de cereais cobriam maioritariamente as necessidades de Portugal, estes eram agora transformados em florestas de monoculturas. Pinheiros e eucaliptos destinavam-se a ser exportados como madeira barata para papel e paletes. Esta foi uma decisão de vistas curtas. Não apenas do ponto de vista ecológico, mas também do ponto de vista económico, dado que os países europeus de leste puderam levar a cabo este empreendimento a preços ainda mais baixos após a queda do muro de Berlim. Nesta altura, no entanto, Portugal já dependia da importação de alimentos, que hoje soma os 80%. Esta é a situação de um país abundante em sol e chuva, com um clima ameno e as “melhores condições de cultivo da Europa”, de acordo com a avaliação do Ferry Enthoven de “Atlantic Growers”, uma das diversas empresas agrícolas estrangeiras radicadas em Portugal.

Os ambiciosos e destrutivos megaprojectos da ditadura, como por exemplo as barragens, foram desenvolvidos sob as políticas da UE. Um exemplo é a Barragem do Alqueva no Alentejo, construída em 2002 – o maior reservatório de água na Europa –, a qual afundou aldeias e locais históricos. Destruiu o Rio Guadiana, outrora esplêndido, com as suas formações rochosas ao longo das margens e habitat privilegiado de uma avifauna diversa e rara. A sua água – já altamente contaminada pela indústria agrícola espanhola – alimenta actualmente um sistema de canais, cujos tubos de cimento e reservatórios de captação permeiam todo o Alentejo.
O lucro é quase exclusivamente ganho pelas empresas agrícolas estrangeiras com as suas plantações gigantes de olival, milho geneticamente modificado e túneis de estufas, em regime superintensivo. Em vez de trazer riqueza à região, o projecto atrai anualmente vários milhares de trabalhadores de mão-de-obra barata clandestina provenientes do Nepal, da Bulgária e da Tailândia.

Alfredo Cunhal, agricultor biológico de Montemor-o-Novo afirma, “Em relação à natureza e à agricultura, a ditadura, o socialismo e o capitalismo seguiram todos a mesma estratégia – centralização e especialização. Isto tem um efeito destrutivo na natureza e é fatal para o desenvolvimento rural.” As suas tentativas de reintroduzir o modo de cultivo tradicional extensivo, o Montado, e de estabelecer uma quinta diversa, merecem tanto apoio quanto possível.

“Depois, nos anos noventa, atiraram-nos dinheiro” relembra-se o professor de História António Quaresma. “Os bancos quase corriam atrás de nós com ofertas de empréstimos generosos.”

A riqueza emprestada obscureceu o sentido de realidade das pessoas. O país encheu-se rapidamente de carros novos, casas modernas unifamiliares e auto-estradas sub-utilizadas, sem que existissem, no entanto, quase nenhuns meios de produção que pudessem gerar riqueza. Quaresma afirma “Nós sabíamos que, a dado momento, receberíamos a factura disto, mas não sabíamos de que forma. Agora já sabemos.”

Como resultado da crise económica global, a armadilha da dívida fechou-se sobre todos – tanto ao nível nacional como privado. Em Março de 2011 o governo português candidatou-se ao resgate financeiro europeu. As consequências das políticas de austeridade empobreceram vastas parcelas da sociedade. Por exemplo, de acordo com relatórios recentes, 600,000 pessoas com mais de 65 anos sofrem de subnutrição. A taxa de desemprego em Portugal é de 18%, e nas pessoas abaixo dos 24 anos de idade é de 37%. Com os aumentos das taxas de juros, inúmeras pessoas tornaram-se incapazes de pagar os seus empréstimos, tal como aconteceu nos Estados Unidos da América. Estas pessoas tiveram de abandonar as suas casas, que foram financiadas com dívida, e mudaram-se para projectos de alojamento social. Sob estas condições, inúmeras famílias desmoronaram-se, tentando ainda assim fingir que tudo se mantinha em ordem. «As pessoas têm vergonha de pedir ajuda» reconhece Teresa Chaves, directora da Cáritas de Beja, a qual devido à crise tem de lidar com um crescente número de casos de penúria. Segundo a sua opinião, o país está sentado numa bomba-relógio social. Nas eleições autárquicas de 2013, os eleitores apresentaram ao governo um sinal deste descontentamento; agora, metade dos concelhos do Alentejo possuem novamente presidentes comunistas.

Do Sonho à Mudança de Sistema
Após todas estas tentativas e derrotas, que ideia positiva poderia activar novamente a vontade das pessoas para a mudança? Qual é o sonho de Portugal?
Se viajarmos pelo meio rural e pararmos nas aldeias remotas, se falarmos com os habitantes locais e partilharmos com eles o pão e os pensamentos, reconheceremos então algo nas pessoas deste país que se manteve extraordinariamente intocado pelas diversas forças invasoras, incluindo pelas recentes exigências da globalização. Existe uma relação francamente desafiante com a terra que os rodeia; a vida na aldeia é ainda caracterizada pelo apoio mútuo, pela boa vizinhança, e pela silenciosa ausência de participação nos hábitos da atitude apressada do mundo globalizado; frequentemente, existe também uma determinação firme em não cooperar com os mega-projectos económicos, tais como barragens e minas.

Conversar com um cliente ainda é mais importante para a operadora da caixa registadora do que o burocrata impaciente que espera na fila. O mecânico ainda pára de trabalhar para fazer festas a um cão vadio. No bar da esquina ainda se consegue comprar a aguardente destilada em casa e trazida da garagem, e o bolo caseiro do
vizinho – mesmo para o polícia que faz vista grossa para o que se passa. Afinal de contas, ele também faz parte da comunidade da aldeia. E foi este sentido de comunidade que ajudou as pessoas a sobreviver através de todas as dificuldades. Ainda hoje, para muitos, isso é mais importante do que os argumentos da economia e do emprego.
É como se a maioria das pessoas seguisse silenciosamente uma perspectiva de vida diferente daquela que os nossos tempos modernos oferecem como um remédio universal. Uma perspectiva de vida que não se centra apenas no dinheiro e no lucro, mas antes em torno de valores comuns, de ligação e de responsabilidade mútua. Parece que, neste país, houve um sonho que sobreviveu à monarquia e ao Império Colonial, à ditadura e à revolução. Talvez Portugal esteja predestinado a reviver esse sonho. “Todo o conhecimento é recordação,» disse Platão. Existem poucos países com tantos monumentos culturais, círculos de pedras e dólmenes da época Neolítica. Abrigados em diversos locais isolados, estes oferecem um vislumbre profundo de um mundo encantado e intemporal. Será possível que estes círculos de pedras nos contem a história de um conhecimento matriarcal de paz, onde a comunidade e a cooperação com a natureza eram ainda uma realidade vivida? É como se estes monumentos culturais marcassem a história de um país, mais do que todas as tentativas de domesticação, tanto por parte da Igreja como por parte do Estado.
Nestes tempos de capitalismo selvagem globalizado, esta forma de vida primordial foi empurrada para a beira do abismo, foi declarada como fraqueza, foi gozada e ridicularizada. Ainda assim não pereceu; não aqui nas áreas rurais de Portugal. Os observadores perguntam-se «Poderá este mundo tornar-se novamente num centro de atracção, agora que o aparentemente triunfante sistema capitalista se desfaz, agora que cai doente, prestes a colapsar, fruto das suas falhas inerentes?”

Nesta situação histórica, os primeiros jovens da geração dos protestos mudam-se para o meio rural, de forma a criar uma perspectiva de vida para lá dos contornos da Troika. Neste clima, fora dos centros modernos de poder, respiram um novo ar de liberdade e investigam novos projectos; regenerando as paisagens e reactivando as aldeias abandonadas, em contacto com as antigas comunidades locais. Confrontados com medidas de austeridade e com as restrições da Troika, emergem projectos para o apoio à vizinhança e para uma subsistência moderna. Ligam-se uns aos outros, desenvolvem cooperativas alternativas para produtos regionais, e subvertem as proibições contra o comércio local com criatividade e teimosia. Experienciam por si próprios o que os habitantes locais têm bem claro: as comunidades aldeãs e as vizinhanças são as bases mais confiáveis em tempos de crise.

Se estas experiências começarem a estabelecer-se e a aplicar o conhecimento disponível globalmente para a regeneração ecológica, para a autonomia energética descentralizada, para a criação de comunidade e para a paz, e para uma economia alternativa, os seus projectos poderiam tornar-se laboratórios para o futuro. Por mais improvável que possa parecer, a crise no sul da Europa poderia ajudar a catalisar uma mudança global de sistema.

É de uma mudança de sistema que toda a Terra necessita. Não é apenas Portugal que vive sob a ditadura financeira; o mesmo sucede pelo mundo inteiro. Quando até as regiões mais remotas se encontram sob ameaça da Nova Ordem Mundial do comércio livre, os movimentos de protesto em todos os continentes precisam urgentemente de modelos que abram caminho para o pós-capitalismo.

Portugal, o país no canto sudoeste da Europa, é uma ponte cultural e ambiental entre a Europa e a África. As soluções que aqui são desenvolvidas e testadas, sob protecção da segurança europeia, podem também ser aplicadas no Sul Global, e poderiam assim contribuir para a dissolução da disparidade entre Norte e Sul. Quarenta anos após a Revolução dos Cravos, o país poderia tornar-se um modelo para um novo socialismo.
O socialismo deverá ser renovado e expandido pelo conhecimento que foi desenvolvido ao longo do século passado. Os cinco pontos fundamentais seguintes precisam de ser componentes de um novo socialismo, para que este possa ganhar um maior poder de atracção e manifestação, comparativamente ao capitalismo.

Parte II: Pontos Fundamentais para um Novo Socialismo

1. Socialização e Descentralização da Produção
Socialismo significa que o poder económico se encontra nas mãos das pessoas que nele vivem e actuam. As decisões e as responsabilidades são tomadas por aqueles às quais as decisões e responsabilidades dizem respeito. A orientação para o lucro como motor da economia não é um princípio sustentável. Acima do enriquecimento privado de indivíduos encontram-se os interesses da comunidade – isto não é um mandamento moralista, mas uma lei para a paz social.

Não são os Estados que levam a cabo o novo socialismo, mas sistemas suficientemente pequenos para serem facilmente abrangentes – aldeias descentralizadas e comunidades regionais, interligadas, auto-suficientes em grande parte, e em cooperação com a natureza. Quanto mais transparentes e abrangentes forem os ciclos de produção, comércio e consumo, mais saudáveis estes serão para o ser humano e para a natureza. Interligado, diverso e descentralizado – o novo socialismo funciona, em muitas áreas, de acordo com o modelo da natureza.

O que significa autonomia regional? Em primeiro lugar, cada região produz os bens básicos que são necessários para o abastecimento dos seus seres humanos, animais, plantas e ecossistemas. Isto é principalmente aplicado à nutrição e à energia. Os produtos excedentes podem ser comercializados fora da região. A receita obtida através da venda dos produtos permanece na região. Subsistência moderna e interligada é o princípio para a reformulação da economia global e constitui um plano supremo para contrariar a globalização neoliberal.

2. Comunidade: O Interior Humano do Novo Socialismo
Historicamente, o socialismo não falhou porque a ideia estava errada, mas porque as pessoas não tinham experiência substancial numa prática de vida comunitária. Se a desconfiança e o medo dominam a coexistência humana, não seremos capazes de socializar a produção. O novo socialismo baseia-se em formas comunitárias de vida.
Se um ser humano é corajoso, justo e solidário, tal não é (apenas) uma questão individual. O desenvolvimento humano é também uma consequência das condições sociais de produção, nas quais o ser humano cresce e vive; das coisas que experiencia enquanto criança – o amor, o lar, a segurança e a abertura. Comunidades funcionais de confiança são o solo mais fértil para o desenvolvimento da solidariedade, da consciência comunitária e da coragem para a verdade – todas as qualidades necessárias para um socialismo funcional. Sob condições de solidão e limitação, os seres humanos tornam-se subordinados ou consumidores, mas não se desenvolvem para se tornarem seres sociais. Onde estes, no entanto, experienciam aceitação, lar e um desafio numa comunidade, um sonho da humanidade encontra realização. O que a juventude do mundo experiencia nas praças e nos acampamentos dos movimentos revolucionários, e o que liga os idosos nas aldeias portuguesas, é esta aproximação à comunidade. Esta experiência pode ser modernizada, objectivada e ensinada.

A comunidade, em que as famílias nucleares são integradas, é o lar original do ser humano. “É preciso uma aldeia para educar uma criança”, diz o provérbio africano. Comunidade é também o lar para o amor; esta concede aqui uma protecção para a sensível abertura ao amor – para que uma relação amorosa não se torne numa prisão.

3. Cooperação com a Natureza e Regeneração das Paisagens
Cada região pode produzir o que os seus habitantes – seres humanos, animais e natureza – necessitam para viver. “Água, alimento e energia estão gratuitamente disponíveis a todos os seres humanos se seguirmos a lógica da natureza, e não as leis do capital”, escreve Dr. Dieter Duhm no “Manifesto de Tamera”. Até mesmo as paisagens severamente degradadas pela desertificação, erosão e desflorestação podem ser recuperadas. Desta forma, biótopos de alimento podem florescer abundantemente, retirando a base para qualquer especulação.

Adicionalmente, precisamos de aprender a cooperar com a natureza. Precisamos de compreender que para além de direitos humanos, existem também os direitos dos animais e da Terra. No novo socialismo, os princípios de igualdade e justiça não se aplicam apenas aos seres humanos, mas também à natureza. Antes de qualquer tomada de decisão, qualquer medida que diga respeito à região, não são apenas as pessoas que devem ser consultadas e ouvidas, mas também os animais, as plantas e os ecossistemas correspondentes. Podemos aprender a ouvir a sua voz.
Com conhecimento acerca da cooperação com a natureza é possível acabar com a escassez, com a fome e com a guerra, em todo o mundo. Tal possibilita que aldeias e regiões possam tomar o seu sustento nas suas próprias mãos, libertando-se da dependência dos sistemas globalizados. Este é conhecimento para a liberdade.

4. O Papel da Mulher e a Reconciliação entre os Géneros
A reconciliação entre os géneros é uma condição de paz e justiça. Não pode haver paz na Terra enquanto houver guerra no amor.
Portugal fomentou desde sempre a adoração do feminino – começando pelas culturas tribais matriarcais do Neolítico, acima mencionadas, ao culto da Deusa do Céu em Fátima, até à adoração de Maria, presente em todas as aldeias.

Um novo socialismo é impensável sem uma valorização mais elevada da mulher. Aqui, não se trata apenas de exigir igualdade, mas de recuperar os poderes e qualidades femininas que não puderam desabrochar durante o patriarcado. Isto encontra-se em plena conformidade com a antiga constituição dos Iroquois, onde um chefe era suposto ser “como uma boa mãe”. Nas comunidades do futuro, qualidades como o cuidado, a reconciliação, o perdão, a responsabilidade social, a comunicação e a construção de confiança serão indispensáveis.

O Socialismo é baseado na solidariedade para com as mulheres de todo o mundo. Tal significa também a coragem para tomar posição pela auto-determinação sexual da mulher; a libertação relativamente às noções de virtude e moral, que já não são actualmente apropriadas. Este moralismo desactualizado foi inicialmente imposto violentamente sobre a mulher, até que elas próprias se tornaram suas defensoras.

Sabine Lichtenfels, teóloga e co-fundadora de Tamera diz, “O novo poder feminino não se direcciona contra os homens, nem contra o nosso amor pelo homem – com determinação, este simplesmente abandona as estruturas masculinas que conduziram à extinção mundial da vida e do amor. Cabe-nos a nós mulheres, agora, assumir novamente a responsabilidade política e sexual que foi abandonada por tanto tempo.”

Todas as áreas da vida, sejam elas a ecologia, a política ou a economia terão uma orientação diferente assim que as mulheres se ligarem às suas fontes e aceitarem o seu significado e a sua tarefa. Comunidades em que a solidariedade e a confiança emergem entre mulheres, em que estas assumem responsabilidade por si mesmas, pelas suas crianças e por aquilo que amam, são lares para a própria vida. Tais comunidades ganham força e estabilidade, e podem resistir às inúmeras tempestades dos nossos tempos.

5. Ética e Espiritualidade: Pontes em vez de Muros
O novo socialismo precisa da ética objectiva que se encontra ancorada nos corações de todos e não de dogmas religiosos ou políticos.
Tradicionalmente, Portugal fora um lugar de refúgio para dissidentes e hereges. Tolerância, hospitalidade e abertura para com estranhos foram sempre mais importantes para as pessoas do que a ideologia e o pensamento jurídico. Paulo Borges, professor de filosofia em Lisboa diz, “Faz parte do Ser de Portugal construir pontes, em vez de muros. Nos últimos 6,000 anos, o mundo tem vivido num paradigma de separação, levando à exploração, guerra e violência. Especialmente em tempos de crise, Portugal pode tornar-se no local de nascimento para um novo paradigma de empatia e não-separação.”

Depois da fatídica aliança entre a Igreja e o Estado durante a monarquia e a ditadura, e o abuso dos dogmas religiosos em nome da dominação e da tirania, a igreja em Portugal renovou-se. Hoje, a igreja encarrega-se de ajudar, de servir e de tarefas sociais, sem o enorme dedo indicador moral que caracterizava o seu passado. Por mais compreensível que tenha sido o distanciamento de muitos dos seguidores do movimento socialista relativamente à Igreja, existe hoje uma cooperação pragmática em diversos lugares. É assim que em diversos locais se une o melhor de ambos igreja e comunismo – o modelo exemplar de Jesus revolucionário, combinando
a tomada de posição pela justiça social, com o apoio mútuo. A ética de um comprometido amor socialista ao próximo, sobre os auspícios de um poder Mariano omnipresente, estaria acima de qualquer religião ou ideologia, e poderia unificar os novos poderes do “despertar”.

D. António Vitalino, o Bispo de Beja, é um exemplo de Cristianismo dedicado. Conhecido pela defesa da justiça social, ele medeia incansavelmente entre políticos e cidadãos. Apoia também a realização de modelos auto-sustentáveis e procura motivar grandes proprietários a doar as suas terras não utilizadas a novas comunidades ecológicas e sociais. D. António Vitalino diz, “Aldeias abandonadas, escolas e quintas poderiam assim ser revitalizadas.”

Tamera – Centro de Pesquisa e Educação: Neste contexto, modelos holísticos e experiências sociais e ecológicas beneficiam da protecção e apoio que precisam para desabrochar. Por exemplo, o centro internacional de investigação para a paz, Tamera, fundado em 1995 por Sabine Lichtenfels e Dr. Dieter Duhm, um escritor bestseller da “Nova Esquerda” alemã. Neste local, vivem e trabalham actualmente 170 pessoas num modelo abrangente para uma sociedade de paz. Desta forma, desenvolvem e combinam soluções ecológicas e sociais para uma forma de vida pós-capitalista, que possam ser replicadas por todo o mundo. Para além do seu trabalho pioneiro em ecologia, focam-se principalmente no resgate do amor e da comunidade humana. Tamera é um centro internacional de educação que traz também conhecimento ecológico, tecnológico e social à região. Cada vez mais, este se torna também um ponto de encontro para o movimento de autonomia regional e local. Outros grupos e comunidades começam já a estabelecer-se, ligando-se uns aos outros, e iniciando um intercâmbio neste contexto – em cooperação próxima e complementação com a população rural existente. Rui Braga, colaborador de Tamera, diz “É desta forma que o Alentejo se poderia tornar no novo Silicon Valley para a autonomia e sustentabilidade”.

 

Resumo

Uma visão torna-se tangível. Aqui, na cauda da Europa, emergem modelos para um novo socialismo; para a experiência vivida da justiça e da liberdade; para a reabilitação da natureza e para a auto-suficiência regional.

Comunidades e regiões interligadas – e já não apenas a classe trabalhadora – são os sujeitos revolucionários para um novo socialismo. Dentro destas, desenvolve-se a inteligência colectiva capaz de dar resposta aos desafios e resistir aos poderes opositores.

O país poderia desta forma voltar a ser a “Meca” da juventude revolucionária do mundo. Esta faísca espalhar-se-á como fogo – e nenhum poder no mundo terá capacidade de a extinguir.

Porque o povo unido – ligado pela amizade e pela transmissão de conhecimento, na posse de condições saudáveis e descentralizadas de produção, unida por uma ética objectiva universal ancorada no coração – jamais será vencido.

 

 

 

One thought on “Quarenta Anos Após a Revolução dos Cravos

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