Poder Suave

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Pensamentos sobre um Novo Movimento Feminino. No dia 8 de Março, celebramos o Dia Internacional da Mulher…

Tamera, Standing stones, meditation at sunrise, Portugal– um dia dedicado ao poder e à emancipação das mulheres. Por um mundo no qual as mulheres possam assumir a sua posição sem terem de se posicionar nem acima nem abaixo dos homens, sem precisarem de o combater ou imitar. Uma cultura de parceria na qual ambos os géneros, como pilares igualmente fortes, se complementam e amam um ao outro. Um mundo no qual a violência contra as mulheres já não tenha lugar. Um mundo no qual as mulheres se possam juntar e cooperar para o bem-estar de todas as criaturas deste planeta – e para um novo amor pelos homens. Como pode estar visão tornar-se realidade?

Em resposta a isto, Sabine Lichtenfels, embaixadora de paz, autora e co-fundadora de Tamera (Biótopo de Cura 1), cunhou o termo “poder suave”. No seu livro, “Weiche Macht” [Poder Suave] escrito há 18 anos, esta criou directrizes para o carácter feminino que até hoje são urgentemente necessárias. “O poder feminino não se direcciona contra os homens, nem contra o nosso amor pelo homem – com determinação, este simplesmente abandona as estruturas masculinas que nos conduziram à extinção mundial da vida e do amor. A menos que as mulheres tomem publicamente uma posição, ninguém poderá escapar deste beco sem saída. Cabe-nos a nós mulheres, assumir novamente a responsabilidade política e sexual que foi abandonada por tanto tempo. Convidamos todos os homens dedicados, a juntarem-se ao nosso trabalho pela paz.”

Através deste livro fala uma mulher que conhece intimamente todas as facetas e dificuldades da vida de uma mulher, que conhece e ama o homem intimamente, que não julga e que pode consequentemente dar orientação. Há muito que vozes femininas e autênticas como esta foram negligenciadas neste planeta. Estas foram silenciadas ao longo da história de dominação patriarcal. Assim que forem novamente escutadas, uma onda de alívio percorrerá a Terra. Somente quando as mulheres abraçarem o seu poder suave, poderão homens e mulheres desabrochar e encontrar-se mutuamente como duas metades da humanidade, de força idêntica. Assim poderá iniciar-se uma cultura de parceria na qual, nas palavras de Riane Eisler, o símbolo da espada perca o seu poder e seja substituído pelo cálice: o símbolo do amor e da abundância.

“O poder das sociedades dominadas pelo masculino consistia na quebra de resistências”, continua Sabine Lichtenfels. O poder suave, em contraste, é o “poder que supera resistências através da força do coração, e que ultrapassa com leveza as dificuldades. [Este é…] um princípio de ordem, que mesmo o homem mais duro seguirá com o passar do tempo, caso reconheça que não é acompanhado de vingança, castigo ou segundas intenções. O homem duro tornou-se duro fruto da falta deste poder suave. O poder suave é o poder presente nas mães que protegem determinadamente as suas crianças. É o poder sexual das mulheres que já não julgam a potência ou impotência dos seus amantes, e que com as suas capacidades gentis ajudam a libertar a alegria de viver. O poder suave é a força que permite ao rebento de erva atravessar a camada de asfalto e alcançar a luz.” Poder suave é o poder de agir a partir de uma âncora profunda na alegria erótica, na comunhão com todos os seres, e na compaixão global – compaixão para com todas as criaturas que sofrem e morrem face às estruturas patriarcais. Compaixão por todas as mulheres que, até hoje, em todas as partes do mundo, são violentadas, circuncidadas, forçadas a casar, apedrejadas, violadas. Compaixão também para com a situação do homem, que foi conduzido a esta luta fruto do seu grande medo do feminino.

Em todos os continentes, milhões de mulheres experienciam esta violência. No livro “Metade do Céu” (por Nicolas D. Kristof e Sheryl WuDunn), qualquer uma das inúmeras descrições dos destinos das mulheres poderia despoletar um oceano de lágrimas. De onde vem este ódio às mulheres? E como podemos ainda manter-nos calmos face à sua existência? Por todo o mundo, os seres humanos encontram-se sob o feitiço de 5000 anos de luta contra as mulheres. “A história foi gravada no corpo da mulher”, diz o psicanalista e co-fundador de Tamera, Dieter Duhm. No seu ensaio, “Cura do Amor”, este escreve, “Consequentemente, as mulheres que se destacavam quer pela sua aparência atraente, quer pela sua força de vontade e coragem, foram caluniadas, acusadas de bruxas e queimadas vivas. Queimadas vivas! Assim que percepcionamos o sofrimento global da metade feminina da humanidade, perguntamo-nos como é possível existirem ainda mulheres com a capacidade de amar. Este é um ponto crucial, e aqui eu gostaria de agradecer a todo o género feminino. A metade feminina da humanidade deve possuir um coração extremamente estável e leal, leal à sua contraparte masculina, que a abusou e reprimiu durante milhares de anos.”

Para curar estas profundas feridas históricas e para que as mulheres se possam ligar novamente com o seu poder, a exigência de igualdade de direitos e de quotas equilibradas de mulheres em altos cargos não é suficiente – embora estejamos gratos por todos os que por mais de um século, com grande coragem, lutaram pela emancipação e pelo terminar da violência. Somos herdeiros dos frutos dos seus esforços. Para iniciar uma verdadeira mudança de sistema e uma cultura de parceria, precisamos de nos libertar interiormente da hipnose do patriarcado.

A história não consiste apenas no Patriarcado

A partir dos achados arqueológicos encontrados em variadas partes do mundo, os historiadores identificaram vestígios de uma cultura matriarcal que outrora se encontrava por todo o planeta – culturas tribais altamente desenvolvidas e culturas de templos na Índia, em Malta, Creta, e nas primeiras cidades construídas em Anatólia e no Médio Oriente. A partir de estatuetas e de artigos sagrados, os investigadores concluíram que estas culturas não conheciam um deus castigador, mas que celebravam uma força vital universal, representada frequentemente através da deusa mãe: o princípio do cuidado cósmico abundante e omnipresente. O poder e a generosidade maternais eram os grandes standards ideais que guiavam estas comunidades históricas. As suas criações artísticas são testemunhas da sua alegria sensual e da igualdade dos géneros. (Sabine Lichtenfels descreve em detalhe no seu livro, “Temple of Love” [Templo do Amor] esta “era da realização sensual”). Parece que estas não necessitavam de se proteger da violência. As suas cidades não tinham muralhas de defesa; não foram encontradas quaisquer armas. Em contraste, muitos dos seus centros, ciências e culturas eram tão altamente desenvolvidos que muitos dos seus resultados exactos permanecem ainda por explicar – pensem na precisão dos seus cálculos astronómicos nos templos e círculos de pedras, os segredos das suas construções sem recurso a maquinaria, e as formas de comunicação ainda misteriosas, ao longo de milhares de quilómetros de distância.

Ainda existem vestígios destas culturas tribais de parceria que sobreviveram em locais remotos e que nos permitem ter uma ideia dos seus valores e estruturas sociais. Entre os Iroqueses diz-se que um chefe deveria ser como uma “boa mãe”. Entre os Musuo, na China, as mulheres falam graciosamente, com humor e sem vergonha, acerca da sua alegria relativa à sexualidade livre e autodeterminada, na qual estas escolhem os seus parceiros sem falsas restrições morais, ou risco de exclusão social.

A era dourada das culturas tribais Neolíticas durou por quase 100,000 anos – uma eternidade inimaginável, em contraste com a rapidez da fundação e posterior queda dos impérios históricos subsequentes. “O patriarcado equipara-se a um acidente: rápido, destrutivo e sem sentido”, diz a investigadora de matriarcado, Heide Göttner-Abendroth. Existem diversas teorias acerca das causas mais profundas associadas ao final das culturas matriarcais. De facto, as culturas mundiais das tribos e dos templos, foram invadidas por hordas de guerreiros durante um período de uns poucos milhares de anos, e foram substituídas por um regime expansivo e implacável de dominação. Seja em África ou na Europa, na América Latina ou na Ásia Oriental, os seres humanos perderam a sua integração cósmica, e consequentemente perderam o paraíso. O que antes era sagrado foi declarado sujo: mulheres, terra, sexualidade. Desde então o género feminino tornou-se o símbolo do mal e da escuridão. A mulher foi roubada da sua elevada posição social como pilar, dentro da comunidade. A sua voz foi negada à esfera pública. Com a introdução do casamento, esta foi apenas autorizada a canalizar a sua alegria sexual para um único homem. O poder deixou de ser medido em termos da capacidade de dar e da capacidade de protecção da vida, mas em termos da destruição da vida. Até hoje, o medo reinou sobre o mundo.

O patriarcado fez emergir diversas ideologias e religiões de dominação. Seja o Cristianismo ou o Islamismo, comunismo ou capitalismo, todos concordavam numa questão – a luta contra todas as coisas sexuais. E a luta contra as mulheres. A natureza sexual e atractividade erótica da mulher davam-lhe poder sobre o homem, fruto do desejo imenso que este tinha por ela, mas este não a podia controlar ou domesticar. Ainda assim, de forma a reinar sobre a mulher, o homem aplicou um princípio que determinou desde então o curso da história: dividir e conquistar. Este dividiu o sagrado e o erótico. A partir daí, de um lado, encontrava-se a mãe pura e celestial, que o homem glorificava e cujo corpo estava para lá do seu alcance; e do outro lado encontrava-se a sedutora, que este tinha trancado nas caves da luxúria proibida, desencadeando sobre ela todas as suas repressões. Mas a verdadeira mulher permanecia invisível ao homem.

Na sua miséria, as mulheres aceitaram finalmente o moralismo sexual que lhes foi imposto como sendo delas próprias. Hoje as mulheres seguem esta sugestão pós-hipnótica. Acreditando que o fazem em nome da glória de Deus, estas reprimem a sua sexualidade e a sexualidade das suas filhas (e filhos).

Não faz sentido agarrarmo-nos ao passado para culpabilizar o homem. Com a repressão da mulher, também o homem destruiu uma parte de si próprio, uma parte da sua potência, uma parte da sua compaixão – e como diz Barry Long, a “única autoridade que um homem pode ter sobre a mulher é o amor”.

O patriarcado falhou em reconhecer que apenas unidos poderiam os géneros adquirir a sua plena grandiosidade. O mundo apenas pode desabrochar entre os dois pilares igualmente fortes, homem e mulher. Se um destes pilares é silenciado, o outro sente a falta da sua contraparte; o resultado é a parcialidade e a dureza solitária. As consequências deste facto – medo, violência, depressão e destruição – fizeram o mundo sofrer até hoje.

Para o bem de todos os seres, em nome de todas as crianças que querem crescer em liberdade, em nome do amor primordial entre homem e mulher – a ordem deste mundo perverso deve ser reposta.

Mulheres por uma cultura Erótica de Paz

Os pensamentos das últimas partes inspiram as “24 Teses para um Novo Movimento Feminino”, de Sabine Lichtenfels, que concluem o livro “Weiche Macht”[Poder Suave]. Vivemos em tempos de transformação global. O patriarcado atingiu o seu fim. Homem e mulher encontram-se nas ruínas de uma história desorientada. Estes têm a oportunidade de começar de novo. O que irão eles fazer?

Talvez, antes de mais, irão parar e olhar para dentro antes de proclamarem novos programas e soluções. Talvez irão antes de mais ganhar claridade acerca da origem e das raízes da história de violência e dominação – a exclusão e repressão do Eros. Estes irão compreender – não poderá haver paz na Terra enquanto houver guerra no amor. O medo e a violência desaparecerão da face da Terra assim que o Eros encontre novamente o seu lugar nas comunidades e nos seres humanos. Uma cultura erótica é uma cultura onde o Eros já não representa uma ameaça, mas que desperta alegria, confiança e amor universal. Apenas uma cultura erótica é uma cultura de paz.

As mulheres irão reconhecer que a sua realização no amor não depende de terem um homem para si próprias. As parcerias vitalícias que desejam não emergem de promessas ou juramentos de lealdade, mas de interesses autenticamente partilhados, e do trabalho comum para uma nova Terra.

A partir deste reconhecimento, as mulheres já não irão vincular o seu grande poder de amar e o seu conhecimento erótico a um só homem. Estas estão destinadas a ser muito maiores e a abarcar muito mais. Também já não irão esperar por reconhecimento, mas irão utilizar o seu poder suave e as suas qualidades femininas sempre que estas forem necessárias. Todas as áreas da vida, sejam elas a ecologia, a política ou a economia, serão orientadas de forma diferente assim que as mulheres se ligarem à sua fonte, e aceitarem o seu significado e tarefa neste mundo.

Estas irão criar espaços de confiança e solidariedade entre mulheres, incluindo especialmente as mulheres que amam o mesmo homem. Abandonarão a comparação, pois compreendem que a comparação coloca um fim à compaixão e que o ciúme não é um sinal de amor. As mulheres maduras já não irão olhar para as mais novas como concorrentes, mas irão apoiá-las activamente no seu percurso de se tornarem mulheres.

Já não irão agir inconscientemente a partir da raiva que se reuniu dentro delas ao longo da história, mas irão parar e reconquistar o poder que nelas se encontrava bloqueado. Agora, encontram-se capazes de guiar e utilizar este poder conscientemente, para um NÃO absoluto à guerra e à destruição, e para um SIM absoluto ao amor e à vida.

Estas criam estruturas sociais baseadas na transparência, confiança e apoio mútuo; comunidades nas quais a mentira e o engano já não possuem vantagem evolucionária. Nestes lugares, amigos e inimigos irão encontrar-se, terminando as suas disputas e encontrando o perdão. As crianças poderão crescer protegidas e em liberdade, porque os pais que já não têm de mentir irão amar-se por toda a sua vida.

Uma utopia? Uma visão? Sim, mas uma visão cujo tempo chegou e que se começa a realizar nos primeiros pontos da Terra. Sabine Lichtenfels escreve, “Se o sonho de um mundo sem medo, de amor livre, for sonhado com mais claridade; se de forma cada vez mais forte desenvolvermos informação que seja necessária à sua manifestação; se nos integrarmos nela, e se o universo for reflectido nesta visão; então esta irá manifestar-se.”

Literatura:

• SabineLichtenfels: “Temple of Love–A Journey into the Age of Sensual Fulfillment” [Templo do Amor – Viagem à Era da Realização Sensual]

• Dieter Duhm: Cura do Amor’ (capítulo em “Construindo Fundações para uma Nova Civilização,” Ed. Martin Winiecki)

• Riane Eisler: “O Cálice e a Espada: A Nossa História, O Nosso Futuro” (español)

 

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