COMUNIDADE COMO TEMÁTICA DE PESQUISA

en de es pt-br
Excerto: É Possível a Paz? – Projecto Declaração 1 – Pelo Doutor Dieter Duhm

131030_Sao_Paulo_Favela_da_Paz_Meeting_Bolivians_SDV_41
Não conseguimos pôr em prática os melhores objectivos a não ser que sejamos capazes de estabelecer comunidades funcionais que revelem habilidade para sobreviver. O humanismo ecológico exige uma nova estrutura social. Ao longo da história do nosso projecto, foram colhidas experiências admiráveis na área da co-habitação humana, permitindo-nos aprofundar o pensamento sobre a formação da comunidade e da solidariedade.

Apenas será possível realizar os objectivos do futuro tendo por base uma comunidade com um bom funcionamento. Desde os anos 60, foram tantos os projectos comunitários falhados devido à não resolução dos conflitos humanos que não podemos mais manter-nos inocentes nesta questão.
Se quisermos pôr em prática uma forma sustentável de humanismo ecológico, devemos então encontrar uma forma de humanismo verdadeiramente humano, social e sexual que liberte os participantes dos fardos e das dores do passado.
As dificuldades que surgem no caminho do processo de cura global não estão apenas no mundo exterior, mas também em nós mesmos. Acima de tudo, as áreas de conflito por dinheiro, poder, amor e sexo formam barreiras interiores que não podem ser superadas com meros apelos à paz. Desde os anos 60 que na convivência diária, frequentemente, factores aparentemente muito simples como a necessidade não realizada de contacto, as aspirações ao domínio, a competitividade no amor e sexo, os ciúmes, as projecções negativas inconscientes, o medo de ser julgado, etc., têm a partir do seu interior minado e destruído a vida de grupos em centenas de projectos.
Mas dado que estes factores não são apenas defeitos individuais mas são, principalmente, consequências de uma doença colectiva cultural, não poderão ser assim resolvidos permanentemente com base num nível individual.
Todos transportamos em nós a dor primordial de uma grande ferida. Desde os nossos tempos mais remotos até ao presente, ao longo das nossas viagens cármicas, temos sido quer vítimas, quer agressores e temos sofrido inúmeras feridas.
O trabalho de cura a que nos referimos, significa curar estas feridas em nós mesmos e nos outros. Esta é a tarefa e esta é também a promessa que nos foi dada com a parábola divina: “Vocês devem e podem curar as lesões do passado.” As directrizes para tal são: verdade, apoio mútuo, responsabilidade para com a comunidade e estar ao serviço da vida. E além disto, ajudem os outros, assim serão ajudados.
Neste ponto, alcançamos uma definição mais profunda de “sustentabilidade”. As necessárias mudanças ecológicas, exigem mudanças humanas e estas apenas poderão realizar-se de forma permanente se formos às suas raízes e desenvolvermos novos padrões básicos para a cultura e a sociedade.
Estabelecer a confiança entre as pessoas e tornar possível a transparência entre elas não é somente uma questão individual, mas é principalmente uma questão societal, cultural e política.
Este é um pensamento fundamental do projecto dos Biótopos de Cura. Devemos desenvolver comunidades nas quais as mentiras, a deslealdade e a artimanha já não possuam uma vantagem evolucionária.
Precisamos de novas estruturas societais que possibilitem uma co-habitação permanente em verdade, amor e confiança. Esta é uma dificuldade histórica herdada, que assedia as nossas existências individuais mesmo nos espaços mais íntimos. Esta questão tem de ser solucionada para que as forças de cura entelequiais possam libertar-se completamente e tornar-se de facto activas.

O projecto de pesquisa dos Biótopos de Cura lida com o desenvolvimento de comunidades futuras que sejam capazes de oferecer aos seus participantes novas experiências de cura e de desenvolvimento que surjam a partir de uma nova experiência de confiança.
Tais comunidades passam inevitavelmente por uma série de experiências interiores com as quais expandem as suas actuais fronteiras e conquistam novos territórios. Ao ir empurrando para fora as suas fronteiras, tornam possível na sua própria vida o surgimento de novos pontos focais interiores.
Trata-se de uma aventura de pesquisa de grande significado, talvez a maior aventura da nossa era.
Lynn Margulis, a conhecida bióloga, disse sobre isto:
Se quiséssemos sobreviver as crises ecológicas e sociais que trouxemos à tona, seríamos provavelmente obrigados a dedicarmo-nos a experiências de comunidade inteiramente novas e radicais.

Talvez se estranhe e surja a pergunta se é realmente necessário um trabalho tão intenso de pesquisa para fundar comunidades que funcionem e desenvolvam novas formas de vida que sejam estáveis e sustentáveis. A resposta é, inequivocamente: sim, é necessário. Até agora os habituais modelos simples alternativos de vida nunca funcionaram por muito tempo por que não estavam à altura das forças destrutivas imanentes às épocas modernas. Os problemas a serem resolvidos no fim da época patriarcal, capitalista e imperialista já não podem ser resolvidos ao nível de um comunismo agrário das comunidades cristãs ou budistas antigas (embora possam ser temporariamente uma verdadeira ajuda para muitos participantes).

As questões do nosso tempo estão de tal modo enredadas e ligadas entre si, que não podem ser resolvidas isoladamente. Não poderá ser desenvolvida uma ecologia realmente não violenta sem uma nova relação com a nossa própria natureza interior; porque a natureza exterior e a interior são dois lados da mesma questão e ambas são movidas pela mesma energia vital.
Enquanto reprimirmos e renegarmos a nossa própria natureza, dificilmente teremos uma relação de amor com as nossas co-criaturas da natureza exterior.
O mesmo é válido para a tecnologia e medicina. A necessária mudança de paradigmas exige uma crescente cooperação com aquelas forças interiores que até então foram, na maioria das vezes, reprimidas e combatidas. São forças mentais e espirituais que têm o seu efeito em toda a matéria viva. Teilhard de Chardin descreveu-as como o “lado interior” das coisas e, desta forma, apresentou uma nova visão do mundo material. Forças cósmicas, supra conscientes, subconscientes ou reprimidas que, até agora foram atribuídas às áreas separadas da psicologia profunda, da religião, da magia e da arte têm de, pouco a pouco, ser integradas num modo de vida consciente de forma a dissolver a esquizofrenia latente da nossa cultura actual. Trata-se de se criar uma nova imagem de nós mesmos enquanto seres humanos.
A mais poderosa garantia para o sucesso deste trabalho é a emergência de campos energéticos que começam a surtir os seus efeitos em cada comunidade a partir do momento em que os seus participantes concordam em perspectivar entre si novas experiências e ultrapassar fronteiras ou limites.
Assim, deixa de ser apenas a força de vontade a actuar, mas será principalmente o campo energético criado que permitirá aos participantes a possibilidade de experienciarem novas vivências.
Desta forma, já não temos de fazer tudo por nós mesmos. Fazemos o que podemos e o resto “que Deus faça”.
Este pensamento sobre os campos energéticos é um pensamento fundamental. Descrevi-o em pormenor no livro “A Matriz Sagrada”. Toda a evolução é baseada na lei dos campos energéticos.
Alguns critérios psicológicos do trabalho da alta tecnologia moderna deveriam ser aplicados no trabalho de pesquisa interpessoal, espiritual e ecológica de tal forma que possa emergir um poder eficiente e permanente de paz.
Estes critérios têm a ver com a energia espiritual e mental, força de vontade, continuidade e alegria antecipada perante os resultados inclusive a crença no sucesso, a disposição para se superar ou transcender quase todas as limitações, declarando-se como sendo possível o que até então parecia impossível. Assim a experimentação e a pesquisa são obrigadas ao desapego de antigas crenças.
Nos tempestuosos processos de transformação da nossa época, o universo que está sempre num permanente estado de evolução lança para os vastos horizontes do nosso campo visual futuros constantemente renovados.
O trabalho de pesquisa nas áreas interpessoais e comunitárias implica sempre manter-se sem stress nestes desenvolvimentos.
A calma apropriada depende em encontrarmos o ritmo certo. A atitude correcta está numa força de vontade que nos prepara para um trajecto longo e difícil. É evidente que a nossa condição mental, espiritual e física é muito importante neste processo.

Pode-se imaginar a dimensão das questões que um grupo de pessoas terá de lidar se quiser ter como propósito criar um modelo de sociedade para um futuro sem guerra. Mas não será também aqui aplicada a regra básica de que quantos mais elevados forem os nossos propósitos, maior será o poder que virá em nosso auxílio?
Processos de Cura na Comunidade através do Estabelecimento da Confiança

“Felicidade é sentir-se em casa quando imerso em algo maior.”

A plena realização na vida depende de como respondo à questão: para quem ou porque motivo faço tudo isto? Se a resposta estiver convictamente orientada para algo superior à própria pessoa, poder-se-á vislumbrar uma vida plena.
De forma a serem solucionados, os problemas pessoais exigem um novo nível mais elevado. Tal elevado nível é a comunidade. Comunidade significa viver numa base comunitária em vez de privada. Talvez seja uma das mudanças mais radicais de paradigmas, a mudança mental e moral de um modo de vida privado para o comunitário.

E é somente neste sentido que podemos desmantelar de forma permanente os mecanismos de protecção e de defesa com os quais os solitários seres humanos da nossa época tiveram de se familiarizar.
O projecto dos Biótopos de Cura, ao longo dos 30 anos da sua história de formação, sofreu massivos golpes do destino. Como é que a comunidade pôde sobreviver aos mesmos?
Conseguiu sobreviver porque tinha desenvolvido um campo energético estável que ajudou os participantes a permanecer juntos. Os participantes já estavam suficientemente familiarizados com as regras de vida comunitária de forma a não caírem numa resignação pessoal.
Comunidade significa conhecer realmente outras pessoas e ver quem estas são verdadeiramente. Pouco a pouco, entramos no mundo humano que está por detrás das simulações da nossa fachada. Aqui ocorrem os verdadeiros encontros de âmago com âmago, de verdade com verdade e o resultado é a genuína confiança. A confiança é a mais primordial e eficiente de todos os poderes de cura. Portanto, o principal objectivo de uma comunidade é criar confiança entre os participantes. É possível ter-se uma noção do que isto significa?
Teremos nós consciência de quantas rupturas foram abertas entre as pessoas na época patriarcal, entre homem e mulher, entre pais e filhos, entre jovens e velhos e entre povos e culturas? A tarefa de restabelecer a confiança primordial perdida é equivalente à tarefa de activar correntes de informação completamente novas no código genético da humanidade. Antigos padrões de comportamento têm de ser abandonados e substituídos por novos. É um processo de aprendizagem sem igual. Mas não terá razão Elisabeth Kübler-Ross quando diz que todos os processos de aprendizagem na vida levam em última instância à aprendizagem do amor? E não deveríamos nós ser capazes disto?
Observemos esta questão com algum distanciamento. A humanidade é capaz de construir estações no espaço, inventar mísseis auto pilotados, descodificar o código genético e disparar com nano canhões contra células de cancro. Não deveria então ser também capaz de solucionar os seus problemas interiores com igual empenho e perseverança?

Share your thoughts:

Your email address will not be published. Required fields are marked *