A Dissolução do Fascismo

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Reflexões – 70 Anos Após a Queda da Alemanha Nazi

“Não é possível neutralizar o neurótico fascista se este não foi descoberto dentro de nós; se desconhecemos as instituições sociais que o reproduzem diariamente.” (i)
– Wilhelm Reich

Através da conquista de Berlim, levada a cabo pelo Exército Vermelho, o Terceiro Reich e a Segunda Guerra Mundial terminaram na Europa, no dia 8 de Maio de 1945. Com a capitulação incondicional da Alemanha, um dos massacres mais horrendos da história humana tinha terminado. O que aconteceu sob o comando de Hitler, rompe de tal forma com as categorias convencionais de pensamento, que até hoje se revelou impossível compreender e processar realmente a história.
O trauma do Nacional-Socialismo permanece indigesto e irresoluto, reprimido no subterrâneo colectivo da sociedade Alemã. Até hoje, os seus efeitos permanecem.

Theodor Adorno, filósofo, afirmou: “é bárbaro escrever poesia após Auschwitz, após o barbarismo absoluto, o extermínio sistemático e anónimo de milhões de pessoas durante o holocausto” – não poderia e não deveria haver poesia. Enquanto a maioria das pessoas pôde apenas reprimir o sucedido, surgia também um outro movimento, formado pelos que se encontravam profundamente transtornados, e que não podiam simplesmente continuar a viver normalmente as suas vidas após testemunhar as atrocidades que o ser humano se revelara capaz de levar a cabo. O slogan “fascismo nunca mais, guerra nunca mais” tornou-se a sua jura sagrada. Surgia assim uma verdadeira esperança de renovação pacífica. Com a fundação das Nações Unidas e a declaração dos Direitos Humanos, a paz mundial e a dignidade humana estariam supostamente salvaguardadas de uma vez por todas.
Mas quanta desta esperança permaneceu? Setenta anos depois de Hitler, o mundo não se tornou mais pacífico. Pelo contrário; nunca existiu tanta escravatura, tanta fome, tantos refugiados, tanta injustiça como nos dias de hoje. Mais de um milhão de pessoas morreram no Médio Oriente nas guerras subsequentes ao 11 de Setembro de 2001. Nações inteiras foram reduzidas a cinzas; um processo acompanhado de torturas, violações e abusos sádicos. Obama perpetua esta demência com a sua cruzada de drones e a sua campanha de assassínio maquinal em grande escala.

A Europa vive sob ameaça real de enfrentar novamente um cenário de guerra entre as potências mundiais. No confronto entre o Ocidente e a Rússia, parece já não existir qualquer limite. Há muito que o perigo de uma guerra nuclear na Europa não se fez sentir tão próximo.
Paralelamente, tanto na Europa como na América do Norte, testemunhamos o empobrecimento de sectores cada vez maiores da população e a acumulação de riqueza nas mãos de pequenos grupos de elite, gerando formas de desigualdade social sem precedentes. Sem qualquer perspectiva para o futuro, cresce nas pessoas uma fúria dirigida à classe dominante. Tudo isto conduz a um clima social semelhante ao vivido no final da República de Weimar. A injustiça económica extrema encarrega-se de abrir caminho para o fascismo. Observemos o emergir dos partidos de extrema direita na Grécia, França, Hungria, etc. Temos razões para crer que tal não conduzirá a uma erupção fascista como vimos eclodir em 1933? O que acontece com a indignação tremenda, quando esta não triunfa na transformação das condições sociais? Já há anos atrás, Noam Chomsky avisara: “o clima social nos Estados Unidos é assustador. A enorme raiva e frustração, e o ódio contra as organizações estatais não são de todo canalizados de forma construtiva. (…) Teríamos um sério problema entre mãos, se por ventura surgisse um líder poderoso e carismático que afirmasse “Eu sei o caminho. Temos um inimigo.” Outrora eram os judeus. Agora, serão os imigrantes ilegais e os negros. Dir-nos-ão que o homem branco é uma minoria ameaçada; que é preciso defendermo-nos e ser a honra da nação. A força militar será mobilizada e actuará violentamente. Tal poderia gerar uma força avassaladora.” (ii)

Durante a crise económica global dos anos vinte e trinta, os comunistas acreditavam firmemente que o falhanço incontestável do capitalismo e o agravamento da miséria social sentida na classe operária, resultaria logicamente numa revolução Socialista. Mas a história provou algo diferente – as massas seguiram a contra-revolução extrema. É necessário compreender profundamente o fenómeno do fascismo, de forma a prevenir a sua renovada erupção.

A Estrutura Latente de Violência: A Base do Fascismo na Estrutura do Carácter
O romance “A Onda”, por Todd Strasser, é baseado numa história real decorrente num liceu Californiano, em 1967. Ron Jones, um jovem professor de história, decide proporcionar aos seus alunos um conhecimento empírico sobre o Terceiro Reich, iniciando uma experiência. Este oferece instruções aos seus alunos sobre sinais comuns e formas de saudação; introduz regras rígidas, punições severas e até uma força policial secreta. Transforma a turma num movimento reverente a um lema: “Força através da disciplina, força através da comunidade, força através da acção, força através do orgulho.”iii Os participantes são contagiados por um entusiasmo incrível e os membros do novo movimento exibem-se publicamente em grande autoridade. Outros estudantes de outras turmas juntam-se ao movimento. Os introvertidos, os que nunca tiveram voz, os insignificantes – são, de súbito, alguém. A Onda – é isto que agora preenche as suas vidas de significado. A violência propaga-se, e pouco depois encontra-se fora de controlo. Participantes do movimento agridem camaradas estudantes que se recusam a participar. Do dia para a noite, miúdos normais transformam-se numa multidão fascista. Do dia para a noite, pais de família bem educados tornam-se assassinos em campos de concentração. De onde origina este fascínio por tal colectivo emocional? E quem entre nós pode em boa consciência questionar-se sobre o que faria nesta situação, obtendo com segurança uma resposta tranquilizadora?

Juntei-me ao movimento anti-fascista em Dresden, na Alemanha, depois do Partido Nacional Democrata, um partido fascista, ter sido eleito para o parlamento estatal com quase 10% dos votos. Queria expressar a minha posição e erguer-me contra o emergente cenário fascista. Nos protestos contra Nazis, experienciei o potencial para a violência escondido também em mim – a euforia de lutar contra os opositores, fascistas ou agentes policiais; de os rodear, de os atacar. Experienciava repetidamente um êxtase absoluto – a multidão entrava em êxtase – até que uma centelha de consciência, a certo momento, descia sobre mim. Comecei a compreender que na luta contra fascistas, eu próprio me tinha tornado fascista. Sabia que era então necessário abandonar aquele meio, de forma a manter a integridade moral. Outros sentiram o mesmo. O que faz com que quebremos todas as barreiras da razão e da boa educação; o que faz com que nos tornemos monstros violentos em situações tão invulgares?
Mais tarde, entrei em contacto com um pensamento congruente, proveniente do psicanalista Dr. Dieter Duhm: “as confissões ideológicas são permutáveis, enquanto as estruturas humanas permanecerem inalteradas.” (iv) Na óptica de Duhm, este é “o facto mais elementar da vida política” (v).

“No que diz respeito ao carácter do homem, ‘fascismo’ é a atitude emocional basilar do homem reprimido, na civilização maquinal e autoritária actual…” (vi), escreve o comunista Austríaco, pupilo de Freud, no seu livro Mass Psychology of Fascism [Psicologia de Massas do Fascismo], publicado em 1933.
Quando já na infância é negada ao ser humano a expressão de necessidades emocionais elementares, quando é severamente rejeitado nos locais onde busca protecção ou almeja confiar, quando é punido com violência por expressar impulsos naturais, quando em todas as instituições sociais, da escola ao exército, até ao meio profissional, nunca é honrado como ser humano mas repetidamente humilhado como servo obediente, cresce dentro de si uma dor e uma fúria indescritíveis, que frequentemente falha em encontrar uma direcção positiva. Encontramos este sujeito em inúmeras biografias – tanto em agressores sexuais e ditadores, como em qualquer pai de família. Qual a diferença entre um genocida e um cidadão comum? Alice Miller, psicóloga de renome, de origem suíça, descobre através dos seus casos de estudo biográficos, ‘quase nenhuma’. Em ambos os casos, opera a mesma estrutura de violência latente. Se esta humilhação é experienciada por toda uma nação, emerge na sociedade uma propensão homicida de ódio e agressão bloqueada, que irá euforicamente libertar a sua fúria sobre um inimigo designado, descarregando-a por último na guerra e no massacre.

A Condução Política de Energias Vitais Bloqueadas.
Todos os sistemas imperialistas conhecem este subterrâneo psicológico e usam-no para os seus próprios interesses de poder – tanto no Nacional-Socialismo, como na forma como os Estados Unidos promovem uma “guerra contra o terrorismo”. O aparato de violência não poderia manter-se, se não beneficiasse da ressonância subconsciente de toda a humanidade. O que seria de Hitler sem as projecções de milhões de Alemães em fúria? O que transformou o pobre pintor de Braunau, na Áustria, no líder da raça Ariana, foi a força demoníaca de energias vitais provenientes de toda uma população, que encontrou um canal e expressão comuns através da ideologia Nazi. Hitler e os seus colaboradores, nem se preocupavam com a racionalidade dos seus argumentos – estes contavam exclusivamente com a eficácia da agitação emocional. Existia uma bomba-relógio no subterrâneo emocional da Alemanha, e Hitler sabia como a fazer detonar.

O que aconteceu entre 1933 e 1945 na Alemanha, foi o culminar de uma crueldade proveniente de 6000 anos de uma história patriarcal de guerra. Foi a consequência de um trauma global, gravado na humanidade com recurso aos meios mais chocantes. Na sequência de milénios nos quais as experiências de fuga, genocídio, violação e guerra foram repetidamente gravadas na alma humana, a população global vive sob uma programação genética de medo, defesa, desconfiança e violência. Este padrão de informação – o campo morfogenético de guerra – domina até hoje a humanidade e é transmitido continuamente. Os agressores de hoje são as vítimas de ontem; as vítimas de hoje, serão os agressores de amanhã; até reconhecermos esta insanidade e quebrarmos o ciclo.

O Carácter Autoritário
Em todas as sociedades patriarcais, Wilhelm Reich descobriu estruturas semelhantes, referentes ao carácter autoritário. Ele descreve uma estrutura de carácter existente em toda a parte. Na superfície, o ser humano autoritário é “reservado, bem-educado, compassivo, responsável e consciencioso.”vii Não existiriam problemas sociais se este nível se encontrasse ligado com o centro autêntico do ser humano – o seu ‘núcleo biológico’ – de onde originam os seus verdadeiros desejos e impulsos. Se esse fosse o caso, o ser humano seria fiel à verdade, sexualmente livre, capaz de amar e criativo, sem dupla moral ou propensão à violência. Ele seria autenticamente moral, sem jamais precisar de um código moral. O comportamento ético emergiria a partir da vida em si. Contudo, entre este centro biológico e as expressões comportamentais do dia-a-dia, existe uma segunda camada reprimida e inconsciente, dominada por “impulsos sádicos, lascivos, predatórios e invejosos”viii.
No tempo de Wilhelm Reich, a instituição social encarregue de perpetuar esta faca de dois gumes, era a família nuclear – sendo a proibição sexual o seu elemento mais eficaz. Aqueles que já na infância e adolescência são fortemente influenciados por experiências hostis ao amor e ao desejo sexual, desenvolvem um bloqueio crónico das suas energias vitais elementares – uma ‘armadura de carácter’. Os impulsos vitais originais, provenientes do núcleo biológico – os impulsos de movimento, aprendizagem e impulsos sexuais – são consequentemente bloqueados e distorcidos.
É preciso imaginar como esse condicionamento afecta a alma de uma criança. Ela é castigada por uma autoridade parental à qual se encontra entregue sem protecção – uma figura de autoridade que ela de facto ama – por ter seguido com curiosidade uma energia física que emanou da alegria de viver. Não há criança capaz de entender este fenómeno, e desta forma instala-se uma confusão interna que não pode ser facilmente dissolvida. A força sexual vital que anteriormente gerava apenas alegria e fascínio, é agora associada à rejeição dos pais e transformada em algo ameaçador, assustador e repugnante – chegando a despertar o medo da morte. De forma a sobreviver, a criança identifica-se com os pais e assume a sua posição, contra si mesma. Incorporamos então uma contradição, onde de um lado se encontram os nossos impulsos, anseios e energias vitais, e do outro a voz internalizada de uma autoridade social pela qual somos julgados. Instala-se assim uma mentira estrutural. Torna-se necessário esconder, reprimir e lutar contra aquilo que originalmente produzia alegria, contra o que há de autêntico em nós, e que grita agora numa fúria justificada. Neste estado de repressão, tudo o que nos relembra essa liberdade na vivência e na sexualidade, constitui uma ameaça a esta rígida ordem interior e precisa de ser rejeitada, sendo que remexe o velho trauma. A violência é gerada a partir desta estreiteza, da repressão da energia vital.
Ainda que o tempo do império Alemão tenha terminado, estes mecanismos funcionam ainda hoje, embora de forma muito mais subtil. Actualmente, quando muitas pessoas já não crescem no ambiente da família nuclear tradicional mas na casa de pais solteiros, o tema já não é tanto o da violência física contra a criança, mas o de uma figura maternal sobre-desafiada. A criança experiencia a indiferença da mãe quanto aos seus movimentos interiores, e o silêncio em referência aos seus movimentos biológicos, enquanto é simultaneamente exposta a um consumo quase ilimitado e inundada com estímulos sexuais pelos meios de informação.

Arquétipos Psicológicos do Fascismo
O Nacional-Socialismo opera com arquétipos psicológicos que irradiam uma atracção quase irresistível nas pessoas provenientes de um contexto autoritário. Este arquétipos encontram a sua origem na esfera neurótica interna na qual esses indivíduos cresceram. Num êxtase quase místico, as pessoas submeteram-se ao ‘Fuhrer’, para nele encontrar a grandiosa figura paternal que nunca tinham tido. Na ‘Comunidade Nacional Ariana’, encontraram o lar. No simbolismo místico Nazi, a nação simbolizava a mãe, na qual se encontravam neuroticamente fixados fruto da proibição sexual. Na ‘teoria da raça’, a luta fanática contra o ‘envenenamento do sangue’ do povo Ariano reflectia perfeitamente o pânico da impureza sexual e da perversão, que na verdade se encontrava escondido dentro deles como potencial oculto para a violência sádica, do qual paradoxalmente se tentavam libertar mediante o massacre de pessoas de outra raça. A esfera superficial bem-educada e moralista da sociedade burguesa, tratava-se apenas de uma fachada pseudo-moralista, sob a qual fervia um substrato perverso.

Enquanto o mundo estiver cheio de indivíduos perdidos, de pessoas que nunca se expressaram verdadeiramente, as ideologias totalitárias encontrarão sempre terreno fértil. Não será o desenvolvimento do Estado Islâmico no Médio Oriente uma demonstração da urgência desta realização? O que dirá este cenário sobre a constituição interna das nossas sociedade, o facto de milhares de Europeus terem aderido voluntariamente ao Estado Islâmico, uma força militar que transforma grandes partes do Médio Oriente num regime de terror, através de brutalidade, crucificação e violação em massa.
Contudo, de forma mais subtil, encontramos as mesmas estruturas na nossa sociedade de ‘liberdade’ e ‘democracia’. Enquanto vivermos em sistemas sociais que nos forçam a mentir e a adaptarmo-nos, haverá sempre o perigo de uma erupção fascista. Enquanto a coesão de uma sociedade, comunidade ou movimento requer a exclusão de, ou a luta contra, minorias ou bodes expiatórios designados, esta permanecerá estruturalmente fascista. O mesmo se aplica quando uma figura de autoridade exerce violência sobre pessoas desprotegidas, e a população assiste sem intervir. Testemunhamos esta passividade nas nossas imediações, mas também a testemunhamos a uma escala muito maior, na falta de compaixão e participação no destino da humanidade e da Terra. Quantas pessoas se afogam todos os meses no Mar Mediterrâneo, nas fronteiras da União Europeia, enquanto as nossas forças de segurança assistem sem intervir? Hans de Boer, que já enquanto jovem integrou o movimento de resistência contra Hitler e que mais tarde comentou sobre as cruéis estruturas de dominação inerentes ao capitalismo globalizado, disse, “A indiferença é o fascismo da actualidade”ix. Quanto mais indiferentes se tornam as pessoas, quanto mais pequena a sua participação no processo político e global, mais subtilmente poderão operar os sistemas totalitários, e mais fácil será para eles destabilizar e explorar nações noutras partes do mundo. A sociedade existente apresenta-se como sendo aberta e tolerante, ecológica e amistosa, mas ela é baseada num acordo silencioso sobre o que pode e o que não pode ser dito. Se alguém se atreve a ir um milímetro para além desta convenção e questiona a fundação ideológica da sociedade – perguntando, por exemplo, se os ataques de 11 de Setembro foram de facto levados a cabo pelo próprio governo dos Estados Unidos – essa pessoa será rotulada de forma a que a sua reputação seja imediatamente destruída.

O que Fazer Contra o Fascismo?
Nem os apelos políticos nem a indignação moral podem neutralizar estruturalmente o fascismo. Não precisamos de mais sermões. Precisamos de uma nova direcção para as forças elevadíssimas da alma humana, uma perspectiva para a violência latente dentro de nós. Die Ärzte, uma banda de punk Alemã, cantou “A tua violência é um grito por amor, as tuas botas militares anseiam por ternura. Por medo do carinho, tornaste-te fascista.”x A letra alcança o cerne de um ponto essencial. Teriam estes jovens aderido ao Estado Islâmico, ou teriam os milhões de Alemães aderido à ideologia Nazi, caso tivessem verdadeiramente experienciado amor? Se queremos um mundo onde a crueldade não exista, é necessário criar formas de vida nas quais ninguém precise de recorrer à violência para compensar o seu enorme anseio por amor, sexualidade, aceitação, aventura e comunidade.

O código ético com o qual as pessoas tentaram enobrecer o carácter bloqueado e traumatizado do ser humano, não sobreviveu às dificuldades da história. Contudo, não é o próprio ser humano que é brutal; brutal é a repressão da sua natureza. Quando uma massa de água provoca cheias e devastação, a questão levanta-se: o que é violento? Será o rio, ou o leito de betão sobre o qual foi forçado a mover-se? Tanto a água como o ser humano precisam de se libertar da estreiteza dos sistemas nos quais foram enclausurados. Quando a água pode fluir livremente, esta revela a sua capacidade de nutrir a vida de toda a natureza. Os rios que correm livremente purificam-se de todo o tipo de venenos, pois encontram-se plenos de vitalidade. Eles expandem e contraem, mas não destroem as suas imediações; pelo contrário, nutrem e fertilizam a terra que os rodeia. O mesmo acontece com as pessoas. Se o ser humano cresce livremente e se pode expressar desde o início, se encontra adultos nos quais pode confiar e levar a sério, se encontra orientação e claridade, e se pode revelar a sua força em todas as direcções, a sua natureza humana e compassiva irá revelar-se. Essa pessoa nunca irá tolerar um regime totalitário ou qualquer outra forma de crueldade. Ninguém que tenha experienciado confiança e aceitação autênticas é capaz de magoar conscientemente um outro ser humano.
Para que este outro lado do ser humano seja revelado, precisamos de novas formas de vida onde as pessoas possam, como Wilhelm Reich diria, ligar-se novamente com o seu núcleo biológico e ultrapassar o trauma histórico. Superar a estrutura de medo é uma tema existencial do qual depende a nossa sobrevivência colectiva. Os mecanismos políticos e económicos através dos quais a humanidade se destrói a si mesma e destrói a base da sua existência resultam de um trauma colectivo. São cada vez mais as pessoas que, em todo o mundo, reconhecem a ausência de soluções no contexto do sistema existente, e procuram novos caminhos. Precisamos de um movimento planetário capaz de unir todas estas forças numa acção comum que estabeleça as fundações para uma forma não-violenta de habitar este planeta. A matriz de medo e violência que dominou a Terra durante milhares de anos precisa de ser completamente substituída por um novo padrão global de informação de confiança e cooperação. De forma a possibilitar esta transformação interior e exterior, precisamos de modelos futuristas convincentes nos quais se investigue e manifeste a título exemplar uma nova forma de vida. A alteração do padrão de violência estrutural para o padrão de compaixão e confiança não é uma questão de terapia de grupo, mas de uma reformulação fundamental de toda a nossa sociedade. No seu livro mais recente, “Terra Nova: Globale Revolution und Heilung der Liebe [Terra Nova: Revolução Global e a Cura do Amor” – edição portuguesa a publicar no final de 2015], Dieter Duhm resume as fundações dessa mudança de paradigma, na medida em que elas se tornaram visíveis ao longo de quase quarenta anos de investigação prática. Duhm delineia assim uma estratégia para a paz global: o Plano dos Biótopos de Cura. O plano propõe o estabelecimento de centros-modelo complexos nos quais o padrão de informação para uma vida não-violenta é manifestado em estruturas de vida concretas – modelos sociais para a dissolução do trauma. Há vários anos que esses locais se encontram em desenvolvimento. À medida que a investigação se torna mais madura e complexa, emergem os primeiros laboratórios vivos para uma nova sociedade de paz estrutural. Ela consiste em novas formas de socialização, novas formas de coexistência humana, novas comunidades que permitem o desenvolvimento de confiança estável entre pessoas. A confiança é a chave para uma cultura verdadeiramente humana. Imaginemos o que isto significa na prática – confiança genuína entre pais e crianças, entre amantes, entre seres humanos e natureza. Uma revolução absoluta após 6000 anos de patriarcado.
Em Terra Nova, Duhm escreve, “Quando a matriz informacional de paz superar a força da informação de violência, os impulsos geradores de violência serão extinguidos do sistema genético humano. Assim, esta tenebrosa época de guerra chegará ao fim. O aparato genético da humanidade foi forçado a ajustar-se a um estado de medo e isolamento, através de processos históricos de violência e extermínio. Através de processos elementares de confiança e de construção de comunidade, seremos transportados para um estado de cooperação e solidariedade. É possível encontrar uma nova direcção de evolução, quando produzimos alterações nesta área crucial, estabelecendo nova informação genética.” (xi)

Simultaneamente, precisamos também de novos sistemas económicos, ecológicos e tecnológicos que permitam o abastecimento autónomo de água, alimento e energia; uma nova relação não-violenta com os animais e os demais seres da biosfera. Assim que os primeiros modelos conseguirem estabelecer uma alternativa funcional, também nas questões sociais e nas questões relativas ao interior do ser humano, a experiência pode emergir em muitos outros locais. Onde o medo se dissipa, a violência e a hostilidade extinguem-se de igual forma. As pessoas já não podem então ser instigadas umas contra as outras. Inicia-se um novo capítulo na nossa evolução – a Era do ser humano autónomo.

Quero concluir com um trecho comovente que a jovem judia Holandesa, Etty Hillesum, escreveu no seu diário pouco antes da sua execução em Auschwitz, em 1943. Ela escreve, “A miséria é de facto enorme; contudo, passeio frequentemente durante a noite, quando o dia que passou se afunda nas profundezas. Caminho em passo lento ao longo do arame farpado, e então emerge no meu coração – não há nada que possa fazer, é o que é, é de uma força elementar: a vida é algo maravilhoso e grandioso, mais tarde teremos de construir todo um novo mundo – e cada crime e cada crueldade terão de ser contrastados com um pouco mais de amor e bondade que teremos de conquistar dentro de nós.” (xii)

As suas palavras são um legado e uma missão para todos nós.
Fascismo nunca mais; guerra nunca mais!

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Literatura:

(i) Reich, Wilhelm. The Mass Psychology of Fascism. New York: Farrar, Straus & Giroux, 1970. xv-xvi. Print.
(ii) Hedges, Chris. “Noam Chomsky Has ‘Never Seen Anything Like This’.” TruthDig. N.p., 19 Apr. 2010. Web. 1 May 2015.
(iii) Strasser, Todd. The Wave. New York: Dell, 2005. Print.
(iv) Duhm, Dieter. “Nonviolence: Attempt at an Answer.” Terra Nova Voice. N.p., 27 Jan. 2015. Web. 02 May 2015.
(v) Ibid.
(vi) Reich, Wilhelm. The Mass Psychology of Fascism. New York: Farrar, Straus & Giroux, 1970. xiii. Print.
(vii) Ibid., xi
(viii) Ibid., xi
(xi) De Boer, Hans. International Summer University. Aula, Tamera, Portugal. Aug. 2002. Speech.
(x) “Die Ärzte – Schrei Nach Liebe Lyrics.” www.lyricsmania.com. N.p., n.d. Web. 02 May 2015.
(xi) Duhm, Dieter. Terra Nova: Globale Revolution und Heilung der Liebe [Terra Nova: Global Revolution and the Healing of Love]. Belzig: Verlag Meiga, 2014. Print.
(xii) Hillesum, Etty. An Interrupted Life: The Diaries of Etty Hillesum, 1941-1943. Trans. Arnold Pomerans. New York: Pantheon, 1983. Print.

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