REFUGIADOS, PARA ONDE IR?

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A Voz de uma Voluntária 

Na praia de Lesbos – um momento de silêncio entre os coletes salva vidas, pilhas de roupa e barcos naufragados, exatamente antes de esperar o próximo bote chegar: mais um barco sobrelotado de pessoas que arriscaram afogar-se para fugir à guerra e miséria. Crianças, mães, e pais que aguentaram mais do que qualquer ser humano devia suportar. Pessoas que não têm mais um lugar onde são bem vindos; que também não podem regressar de onde vieram, nem ficar aqui.

Eles chamam-nos – os voluntários – o coração desperto da humanidade. Assistimos onde a ajuda é necessária. Arrastamos refugiados do mar, oferecemos-lhes roupas secas, comida, apoio médico quando possível, e um lugar para dormir. Muitos de nós trabalham até à exaustão todos os dias. É um privilégio poder ajudar e nós estamos gratos. Pode mostrar-nos o poder do coração humano – ver como reage agradecido à amabilidade, quão pronto está para confiar e apoiar outros e quanto se orienta para a abertura, vezes sem conta.

E porém sabemos que enquanto o nosso empenho alivia alguma miséria, não é o suficiente para a ultrapassar. Oferecemos os primeiros socorros às pessoas; no entanto, depois deixamo-las partir para um futuro incerto.

Eles continuam a bombardear as cidades, continuam a desalojar pessoas e continuam a matar refugiados – com a força das armas que foram produzidas no meu país. Nas fronteiras e zonas costeiras, eles continuam a fazer grandes lucros explorando esta miséria. Os políticos continuam a selar e fortificar as fronteiras dos seus países, constroiem muros e vedações afiadas e pagam a regimes sem escrúpulos para impedirem a entrada para a Europa.

Entretanto, neste mesmo momento, além na costa da Turquia, há uma criança pequena, a brincar ou a dormir, a rir ou talvez a chorar, que vai em breve morrer no mar. Talvez esta noite, talvez amanhã ou no dia seguinte. O mar não teria água suficiente se chorássemos a sua morte. Compreendo bem a Rosa Luxemburg que, enfrentando a guerra, disse uma vez: “Talvez precisemos de sair de toda a humanidade”.

Hoje, o coração desperto da humanidade bate cheio de raiva. Amanhã pode voltar a ser simpático e cooperativo outra vez, mas hoje quer bater-te com a cabeça nas tuas vedações e armas, na tua estupidez e poder políticos, no teu sono confortável e na tua xenofobia. O que encaramos em Lesbos todos os dias não é apenas a miséria de inúmera gente; é o falhanço evidente absoluto de todo o actual sistema. Não importa quão bem intencionado, democrático ou educado este sistema finge ser, está baseado na guerra e continuará a guerrear enquanto existir. E nós somos parte dele, não apenas como soldados ou políticos, mas também como cidadãos bem comportados e consumidores. A guerra não terminará, enquanto vivermos, agirmos e pensarmos dentro deste sistema. O que estamos a viver actualmente com esta crise dos refugiados, é na realidade o ponto de exclamação absoluto detrás do imperativo dos nossos tempos – ou mudas ou morrerás!

ISTO DIZ RESPEITO A TODOS NÓS…
Como habitantes da Europa: a riqueza dos nossos países foi comprada com as armas com as quais se fazem as guerra actuais. Quem semeia guerras colhe refugiados. Escondemos os nossos medos detrás de muros defensivos de indiferença, construídos a partir de bens de consumo que ninguém precisa. No entanto, ficar em silêncio já não é uma opção. Esta crise não vai simplesmente desaparecer por si própria. Dentro de um sistema que depende da guerra, não pode haver um futuro que valha a pena ser vivido, nem para os refugiados nem para nós. Ergamo-nos e acabemos com a exportação de armas! Construamos comunidades a partir das quais uma nova sociedade possa desenvolver-se; uma onde as pessoas de diferentes proveniências nacionais e culturais possam encontrar partilha de identidade, solidariedade e uma perspectiva para o futuro. Neste espírito, vamos continuar a dizer “Bem-vindos”!

Como refugiados: pais de família que experienciaram a guerra e a destruição dos seus lares e conseguiram trazer a si próprios, às suas famílias e crianças para a Europa com grande esforço. Mães e mulheres que carregam o fardo mais pesado – como em todas as guerras. Homens jovens do Magreb e de países árabes que sonham há muito com um mundo livre, e com um romper do espartilho das proibições sexuais. E as crianças! Tantas crianças. Estão todas a caminho das grandes cidades do Norte – e portanto para o centro do sistema que destruiu as suas casas. Precisam mesmo de se integrarem neste sonho enganador de vida? Elas e todas as outras pessoas precisam de outro tipo de objectivo para seguir, um outro sonho por que viver.

Como soldados e combatentes de todos os partidos no Afeganistão, Síria, Iraque. A sua convicção ardente na liberdade, democracia ou pureza de Deus, foi abusada. Seguem comandantes em quem não podem confiar e lutam em guerras em que nada beneficiam. Antes, eles próprios viviam nas ruas como as que agora arrasam. Eles foram outrora tão medrosos como as crianças que agora morrem debaixo das suas bombas. Um dia irão procurar o seu caminho de regresso à comunidade humana. Irão precisar da possibilidade do perdão, da mudança e de um novo começo – uma nova forma de aplicarem os seus enormes poderes ao serviço da humanidade.

Como jornalistas que relatam a partir de zonas de guerra e áreas em crise. Quem incita ao horror sem oferecer uma saída, torna-se também cúmplice do ciclo da guerra. Na realidade, esta tarefa é muito crucial. O que principalmente decide se haverá paz ou guerra é a informação, não as armas. Ajudar a divulgar as raizes da guerra e os seus antecedentes e salientar as soluções. Documentar o caminho comum em direcção a uma visão de um mundo pacífico!

Políticos e decisores: como voluntários a trabalhar em Lesbos temos questões para vocês, questões ingénuas que podiam vir das muitas crianças que chegam todos os dias. Por exemplo, se são capazes de lançar bombas na Síria, porque não lançam também apoio médico e alimentos? Enviaram milhões para o regime turco, que empurra muitos refugiados para trás na guerra civil. Porque é que, por outro lado, é tão difícil para vocês abrir um serviço de registo no lado turco que permitiria aos refugiados atravessarem o Mar Egeu de forma segura e legal? Vocês elogiam os voluntários e agradecem à mentalidade de boas vindas na Europa. Então porque forçam vocês a polícia grega a limitar e mesmo prender voluntários?

Sabemos quantas vezes vocês têm as mãos atadas. Vocês representam um sistema que já não está a resultar. As exigências de muito dinheiro e da burocracia tecnocrata na UE sufoca as melhores ideias. Convidamos-vos a passar uma semana a trabalhar connosco, aqui, na praia de Lesbos. A receber as pessoas que perderam tudo. Como lhes responderiam os vossos corações? Que decisões seriam forçados a tomar?

Não existe solução dentro do sistema. As suas armas, guerras, e relações de produção e consumo, destruiram os lares de 60 milhões de pessoas em todo o mundo – este é o número actual de refugiados em todo o mundo. Ajuda verdadeira significa endereçar as causas da emigração. Ajuda verdadeira significa acabar com um sistema que não pára de perpetuar a guerra. Vamos conseguir sair do velho sistema quando conseguirmos construir um novo – primeiro a pequena escala em muitos lugares em todo o mundo, até sermos capazes de substituir o velho sistema. No entanto, que tarefa isto representa! Quanto conhecimento de recuperação ecológica, verdadeira colaboração, comunidade, e verdade nas relações interpessoais será necessário para isso! Quanto perdão, compaixão e verdadeiro diálogo para lá de todas as barreiras culturais!

Como voluntários em Lesbos mostrámos que o coração da humanidade ainda bate, apesar de tudo. É uma força política com que o mundo deve contar. Os primeiros refugiados juntam-se e tornam-se eles próprios voluntários. Através disto, uma ampla, nova comunidade planetária surge aqui. Todos os dias somos testemunhas de como as pessoas se excedem a si próprias, como comunicam de uma forma tão compassiva, cooperam eficazmente e são capazes de operar milagres se for preciso. O mundo inteiro está confrontado por esta necessidade: junta-te a nós para tornar este planeta outra vez a casa que originalmente devia ser, para as pessoas, animais e todos os seres.

Leila Dregger
Jornalista de paz na Comunidade de Tamera
Fevereiro de 2016

 

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