O Grande Plano e a sua Implementação

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O Plano Global dos Biótopos de Cura

Caros amigos,

Escrevo este texto a partir de Malta, para onde me desloquei com Sabine Lichtenfels de forma a escrever um Manifesto de Eros, uma fundação para a nossa Escola do Amor. Olhamos para o mar, perto da costa Africana, perto de Lampedusa, epicentro de turbulência global e sofrimento humano indescritível. A situação dos refugiados é uma tragédia de toda a humanidade. Muitos de nós colocaram as mãos e o coração ao serviço desta causa, e testemunharam com os seus próprios olhos o que sucede, por exemplo, em Lesbos. Torna-se óbvio que precisamos de uma nova forma de responder a estas situações. Apenas poderemos colocar um fim à tragédia dos refugiados se formos capazes de produzir mudanças fundamentais nas condições sociais, tantos nos seus países de origem como de destino. Se a minha compreensão do funcionamento do mundo está correcta, é possível concretizar este objectivo. Tornar possível o impossível requer, neste caso, uma mudança profunda na nossa forma de pensar. Neste artigo quero debruçar-me sobre a lógica da cura global.

Recentemente li um artigo online com o título “Der Traum vom Blitzfrieden” [O Sonho de Paz Instantânea]. O autor, Martin Häusler, afirma que a guerra global poderia terminar rapidamente. É uma ideia bonita, e eu acredito que é de facto possível colocar um termo à guerra global num espaço de tempo surpreendentemente curto, mas não acredito que tal aconteça do dia para a noite. De forma a levar a cabo este empreendimento, precisamos de um coração honesto e de um plano de implementação em grande-escala. Precisamos também de preencher uma série de condições relativas à existência humana na Terra. Que tipo de condições são estas?

A condição essencial é saber que não precisamos apenas de reforma política, mas de uma mudança sistémica fundamental. Precisamos de novas fundações para a cultura humana; um novo conceito para a habitação deste planeta e para coexistência entre o ser humano e as demais criaturas. Este conceito já existe! Ele está contido numa ordem global mais elevada à qual chamamos ‘Matriz Sagrada’, enraizada nos genes de cada ser vivo, pelo menos como possibilidade. A essência desta matriz é a unidade de todos os seres; o padrão universal de informação que os liga a todos (ver o meu livro “The Sacred Matrix” [A Matriz Sagrada]). Durante algumas décadas, no projecto dos Biótopos de Cura, temos trabalhado numa tentativa de remodelar a comunidade humana e o meio-ambiente de acordo com a Matriz Sagrada.

A humanidade perdeu de vista este padrão. O sistema patriarcal-imperialista-capitalista gerou um campo morfogenético de medo, sob o qual a vida na Terra sofreu crueldades indescritíveis durante milhares de anos. Todos transportamos a marca desta história como herança colectiva; todos carregamos parte deste trauma. De forma a poder gerar cura ao nível global, precisamos de uma força colectiva mais forte que o passado colectivo. Alcançar a paz global envolve dissolver o trauma colectivo; o campo morfogenético de guerra precisa de ser transformado num campo morfogenético de paz. Este processo opera através da criação de nova informação, que precisa de ser introduzida na noosfera e nas pessoas.

Nova Informação
A informação a que me refiro diz respeito à criação de novos tipos de povoamentos autónomos (Biótopos de Cura) em todos os continentes. Nestes povoamentos está contido o padrão primordial para a coexistência entre seres humanos, e entre os humanos e as demais criaturas. Se com esta informação pretendemos gerar um novo campo morfogenético, esta precisa de ser compatível com a ordem mais elevada da vida, na qual tudo tem origem, e que sustém a coesão de todas as coisas. Todos os seres estão ligados à ordem universal da Matriz Sagrada. Todos os seres transportam nos seus genes a imagem da Matriz Sagrada, independentemente do quão alienados estes se tenham tornado por consequência das inúmeras aberrações decorrentes ao longo da história. A ordem social humana e a ordem social universal (ou divina) precisam de unir-se, de forma a colocar termo ao sofrimento na Terra. O ‘grande plano’ consiste na activação desta transformação e na manifestação da ordem da Matriz Sagrada na Terra. É possível fazê-lo porque esta ordem se encontra dentro de nós. Central à ordem da Matriz Sagrada é todo um conjunto de princípios éticos, ecológicos e espirituais, mais ou menos familiares a todos nós. Já todos os vivenciámos como verdades em determinadas situações abençoadas na nossa vida, em experiências de solidariedade colectiva, na observação da natureza, na ‘resposta às nossas orações’, em ‘curas milagrosas’ e momentos de ‘iluminação’. Também os conhecemos a partir dos grandes livros de sabedoria, tais como as Upanishads, Tao Te Ching, o Evangelho de Mateus, entre outros. E por último, conhecemo-los a partir das descobertas no campo da ciência moderna. Todos conhecemos e amamos a Matriz Sagrada sempre que a encontramos na sua pureza; e ainda assim, todos a abandonámos repetidamente, por termos sido condicionados de forma diferente pelos nossos hábitos comportamentais.

A mudança sistémica será introduzida através dos primeiros grupos que compreendem e actuam na base desta matriz. Ao fazê-lo, estes estabelecem uma nova direcção evolucionária para a sociedade humana, de acordo com os preceitos da Matriz Sagrada. Isto requer uma base num conceito teórico e requer experiências comunitárias concretas, através das quais o aspecto social do plano (tal como o significado do imperativo ‘não julguem’) pode ser compreendido. O ‘grande plano’ é todo um pacote de informação que abarca a criação de comunidade, sexo, amor e parceria, educação de crianças, cooperação não violenta com animais, regeneração do ciclo hidrológico, produção de energia e alimento, novos modelos económicos e criação de redes entre os novos projectos. O seu âmbito é global; trata-se de um conceito abrangente ao nível ecológico, tecnológico, social e ético, cuja meta é compatibilizar-se em todas as suas partes com os princípios da Matriz Sagrada. Na sua essência, encontra-se sempre a mesma directriz condutora de compatibilização. À medida que entramos nesta mudança sistémica, os passos seguintes revelam-se, pois existe em nós um conhecimento profundo destes processos. No crepúsculo do nosso esquecimento, emergem contornos que se tornam cada vez mais claros – contornos de uma relação intacta entre os géneros, de uma relação com os animais, com a natureza, com a água, com o ‘espírito santo’ e com o nosso Eu-superior. Em todas as pessoas, encontra-se latente uma visão clara e objectiva de uma vida saudável na Terra. Segundo David Bohm, esta visão encontra-se na ‘ordem implícita’ do mundo. Actualmente, ela tem de ser trazida para a ‘ordem explícita’.

Construindo um Novo Campo Global
A evolução opera através da criação de campos; isto aplica-se tanto à evolução da natureza como à evolução da sociedade humana. Após Watts ter desenvolvido o motor a vapor no séc. XVIII, a revolução industrial espalhou-se pelo globo. Após o início da utilização de petróleo, há cem anos atrás, as grandes indústrias expandiram exponencialmente. Com o desenvolvimento da bomba nuclear, deu-se início à era nuclear. Com a invenção da tecnologia informática, iniciou-se uma era cujo fim não podemos ainda imaginar, pois parece ter apenas começado. Estes desenvolvimentos tecnológicos colocaram nas mãos do Homem um poder crescente sobre o mundo material, com escassos benefícios para a Terra. E se fizéssemos uma descoberta estrondosa (i.e. geradora de um campo de informação) de impacto equivalente na esfera social? Parece-me óbvio que se realmente estabelecêssemos novos centros, coesos com a Matriz Sagrada, uma mudança sistémica global poderia rapidamente ver a luz do dia – isto porque a informação da Matriz Sagrada, rumo à qual esta transformação se move, já se encontra presente em toda a parte. O processo morfogenético global baseia-se na ressonância entre a alma humana e o espírito da Matriz Sagrada. A cura sucede na medida em que esta ressonância ocorre. Isto aplica-se não apenas ao indivíduo mas também à humanidade como um todo, bem como a cada região desta Terra.
A nova informação tem de ser inserido no mundo a dois níveis distintos. Primeiramente ao nível de modelos concretos (Biótopos de Cura) e, em segundo lugar, ao nível da disseminação global proporcionada por tecnologia digital. Com o primeiro nível, demonstramos a viabilidade dos novos modelos; com a segunda, aumentamos a prontidão da humanidade para aceder à nova informação inserida na noosfera. Isto promove um estado “estimulado” no campo de informação da Terra. O núcleo de uma nova sociedade global será construído por estas duas vias.

Como o Mundo Material é Transformado através de Informação
O mundo pode ser transformado mediante uma única porção de informação fundamental. Podemos estudar o funcionamento de processos globais através de correlações existentes nos nossos próprios sistemas fisiológicos. Por exemplo: se estou furioso com alguém, o meu corpo reage com agressão. Se mais tarde descubro que a minha raiva era baseada num mal-entendido e que na verdade a outra pessoa tinha agido de boa fé, a minha fisiologia transforma-se de imediato. O meu corpo move-se de um estado de raiva para um estado de apreciação – existem alterações bioquímicas mensuráveis. Para mim isto é fascinante. Os nossos corpos reagem a informação relevante, libertando substâncias mensageiras (neuropeptídeos) que influenciam a totalidade do nosso organismo de várias formas. Substâncias mensageiras estimulam o ADN a produzir proteínas que influenciam a coordenação física do corpo. Desta forma podemos compreender como algo tão complexo como um sistema celular humano, que contém 50 triliões de células, é guiado pela inserção de uma única porção de informação. Testemunhamos este fenómeno nas chamadas curas milagrosas, nas quais uma doença aparentemente incurável é superada através de uma oração, uma experiência positiva ou uma nova decisão de vida. O organismo recebe nova informação e reage com uma transformação total do programa, da doença para a cura. Por vezes tais mudanças são provocadas por pequenos eventos. O organismo humano pode ser equiparado a um caleidoscópio, revelando este ou aquele padrão dependendo de como o giramos. Todos os padrões estão contidos no potencial do caleidoscópio.

Não será possível que o que se aplica ao nível individual também se aplique ao corpo geral da humanidade? Na minha perspectiva, indivíduos são células no super-organismo da humanidade. Quando nova informação de cura compatível com a Matriz Sagrada entra na noosfera, todos os indivíduos são afectados. Por estarmos todos abarcados pela Matriz Sagrada, todos podemos receber forças de cura, tal como as células no corpo do indivíduo. Contudo, todos nos tornámos ‘distraídos’ pelo trauma de uma longa história de guerra; é por esse motivo que os nossos sistemas se tornaram epigenéticamente distorcidos, frequentemente para lá da nossa capacidade de o reconhecer. Ainda assim, a imagem original permanece presente, de forma latente. Se esta imagem original puder agora ser activada através de nova informação, a Matriz Sagrada é reactivada no organismo (semelhante à forma como uma imagem original ‘escondida’, contida numa película holográfica, se torna de novo visível quando a película é iluminada a partir do ângulo correcto). Porque a Matriz Sagrada se encontra contida nele, no seu eu-superior, ao que poderíamos chamar de ‘atman’ ou ‘natureza crística’, até um assassino pode tornar-se capaz de amar, quando confrontado com uma informação profundamente humana. O que se segue é um estado no qual a guerra se torna impossível – fisicamente impossível – porque o organismo transporta informação diferente.

O Princípio do que ‘Acontece por si Próprio’
Tal como a árvore cresce por si própria, também os biótopos crescem por si próprios e as crianças começam a andar por si próprias. Sempre que um pintor, um dançarino ou um compositor se entrega e se funde com o seu trabalho, este sente que a obra flui através dele. A vida opera de acordo com o princípio do que ‘acontece por si próprio’, gerando proezas milagrosas na sua força e precisão, sem esforço aparente. Claramente, um dos objectivos de uma nova cultura de paz é compreender este princípio (denominado Wu Wei e Mo Chi Chu nas tradições Orientais) e segui-lo com cada vez mais consciência. Uma transição daquilo a que Castañeda refere de ‘Tonal’ para ‘Nagual’ enriqueceria brutalmente o funcionamento de novos empreendimentos comunitários.

Dentro da coerência do campo de informação da Matriz Sagrada, dá-se uma restruturação dentro de nós, à qual podemos chamar de auto-cura ou auto-organização. À medida que nova informação entra em vigor e ganha ímpeto, esta continua a operar ‘por si própria’ como um processo morfogenético. Os envolvidos não precisam de compreender cada detalhe, nem precisam de resolver terapeuticamente todos os conflitos nas suas vidas, pois integram um campo de cura que se auto-organiza crescentemente à medida que se torna mais forte. As pessoas comportam-se como partículas de metal dentro de um campo magnético, posicionando-se de acordo com as linhas de força do campo magnético existente. O ‘grande plano’ que descrevo contém a informação dos Biótopos de Cura globais. O plano é o campo magnético, com as suas diversas linhas de força, ao longo das quais todas as coisas, todas as pessoas, todas as posições profissionais se moldam de uma nova forma. O plano gera auto-organização na medida em que os que colaboram localmente e globalmente se encontram em coerência com ele. O plano pode então ser visto como o ‘chefe’. Quanto mais coerência uma comunidade consegue estabelecer com este plano, menos necessita de autoridades externas. Isto poderia dar um novo significado ao termo ‘democracia de base’, frequentemente utilizado actualmente.

Um Fim Definitivo à Violência Sexual: Uma nova visão para a polaridade e amor entre os géneros
A questão do amor erótico é um aspecto essencial do ‘grande plano’. Todos originamos da união entre homem e mulher. Homem e mulher são duas metades da humanidade e precisam de unir-se de uma nova forma – em plena confiança, alegria, sem violência ou humilhação. (Isto não é um julgamento contra ou a favor da homossexualidade. Cada caminho no amor serve a cura, na medida em que seja caminhado em verdade interior. Aquilo a que me refiro é a polaridade fundamental que nos trouxe ao mundo.)

Onde é que se encontra a verdade, para além de todas as projecções convencionais? Em que é que consiste esta polaridade, esta atracção mágica? Haverá uma diferença fundamental entre homem e mulher, para além das construções culturais? Talvez até um dos mistérios profundos da Criação? Homem e mulher precisam de reconhecer-se ao nível da alma, de forma a gerar amor duradouro e solidariedade mútua. Isto requer também que nos tornemos honestos acerca dos nossos desejos sexuais. Na área da sexualidade, somos todos poliamorosos, a certo nível. Após algum tempo numa relação a dois, a maioria das pessoas sente uma atracção por outras. Não há nada de errado nisto. O problema são os velhos conceitos de relação e fidelidade, que nos forçam a esconder este desejo talvez até de nós mesmos. Existe uma forma diferente e mais elevada de fidelidade, enraizada numa confiança radical que não quebra quando um parceiro se encontra com outra pessoa. Inúmeros acidentes encontram a sua causa nas desconfianças e mentiras secretas que ofuscam o amor erótico. Para restaurar a confiança entre amantes precisamos de uma nova ordem social que permita vivermos a nossa sexualidade de forma livre e honesta. É isto que queremos dizer com ‘amor livre’. Trata-se de um termo cultural, não de uma fantasia de masturbação. As obsessões pornográficas, violentas e degradantes dissolvem-se num campo de amor livre, à medida que nos tornamos capazes de fazer contacto autêntico. Embora em Tamera não tenhamos ainda conseguido resolver a totalidade do tema erótico com a introdução de amor livre, removemos já um bloco histórico e continuamos a percorrer este caminho de entendimento. Amor livre só é possível quando existe um grande nível de confiança entre os envolvidos. Para cultivar esta confiança precisamos de comunidades funcionais.

Vivenciamos o efeito do que ‘acontece por si próprio’ na nossa comunidade, com a transição para amor livre. Assim que o campo para amor livre foi estabelecido, todos podiam manter as suas relações a dois caso assim o desejassem; ninguém os teria impedido. Sempre apoiámos as relações a dois emergentes, e ainda assim, que relação a dois pode persistir com a permissão de amar livremente? Contudo, o ideal de parceria mantém a sua validade, pois é baseado noutra fundação. Se a fidelidade entre duas pessoas persiste na verdade do amor livre, os envolvidos podem confiar nela. A sexualidade livre e a noção de parceria não se contradizem, mas complementam-se. (O autor pode talvez servir de exemplo para esta afirmação.) Como escrevi no meu livro, ‘Eros Unredeemed’ [Eros não redimido], “Podemos apenas ser fiéis quando nos é permitido amar outros.”

A aceitação do nosso lado animal na sexualidade é uma chave para a cura. Refiro-me ao desejo puro de carnalidade, que contém em si uma força vital enorme e é expressão da Matriz Sagrada. A supressão permanente de atracção sexual não serve a paz, e gera condições para o desastre. Existe um ponto na relação entre homem e mulher que determina se haverá guerra ou paz neste mundo. Este ponto é a aceitação ou rejeição da natureza animal na sexualidade. Os sistemas dominantes assentam na supressão de energias sexuais elementares. Estes sistemas introduziram uma mentira no mundo, que resultou num estado latente de guerra entre homem e mulher. A luta patriarcal contra a mulher e contra o corpo deixou feridas profundas em ambos homem e mulher. Durante milhares de anos, raramente foi possível para uma mulher mostrar a sua ‘animalidade’ sensual sem arriscar a sua reputação ou a sua vida.

Nesta esfera enfrentamos uma mudança de paradigma talvez mais importante que qualquer outra. Como expressão da Matriz Sagrada, a nossa natureza sexual não pede por violência ou subjugação. Contudo ela apela por uma ligação animalesca com a carne. Quando isto é proibido, as barreiras são quebradas violentamente; revela-se todo um cenário de crueldades sádicas, com o qual a história humana se encontra saturada até hoje. A vítima tem sido quase sempre a mulher. (Tem de existir um amor enorme enraizado na mulher relativamente ao homem, que a permita ser ainda capaz de o amar!) Se a confiança surge entre os géneros e se esta confiança alcança as regiões mais íntimas do desejo sexual, e se este processo não é apenas um momento entre dois parceiros mas algo duradouro e colectivo, algo completamente novo pode surgir. O holograma do medo é então transformado num holograma de confiança. Novas substâncias mensageiras são libertadas no corpo da humanidade como um todo.

Animais numa Cultura de Paz
O novo comportamento dos animais é um capítulo particularmente divertido e surpreendente no processo de criação-de-campo de uma comunidade de paz. Menciono o tema dos animais porque ele nos mostra o quão diferente tudo será assim que abandonarmos as velhas jaulas de pensamento. Os animais são um aspecto importante da ‘utopia concreta’ rumo à qual trabalhamos. Assim que o reino animal percebeu que podia confiar nas pessoas de Tamera, os cães e os javalis das redondezas começaram a aparecer na nossa propriedade em busca de refúgio dos caçadores e outras ameaças. Entrámos numa comunicação especial com os nossos coabitantes animais. As cobras de água enrolavam-se em torno das pernas das pessoas, ou repousavam as suas cabeças em barrigas humanas. Os ratos já não tocavam nos nossos armazéns de comida. Os javalis respeitavam as nossas hortas. Quando introduzimos galinhas no nosso terreno, comunicámos aos animais selvagens (martas, mangustos e raposas) que durante as primeiras semanas não deveriam atacar nenhuma delas. A porta do recinto manteve-se sempre aberta. As galinhas podiam andar até uma placa marcada e nenhuma foi atacada. Era quase um milagre, mas aconteceu. Os animais selvagens agiam de acordo com os preceitos da comunidade de paz; respeitavam a nossa autoridade. Desta forma, desenvolveu-se uma certa intimidade entre seres humanos e animais, que até então apenas conhecíamos pelos contos de fada. No decorrer destas experiências percebemos o quanto os animais procuram orientação humana, e como a seguem alegremente assim que se estabelece confiança. Toda a biologia de um local parece transformar-se quando existe um campo de confiança. A mudança de Eras que hoje enfrentamos tem o nome de confiança. Nenhum ser vivo teria medo de outro se os envolvidos coexistissem em confiança. Ninguém seria capaz de torturar um animal com o qual se tenha encontrado num estado de confiança. Isto abre dimensões interessantes para uma coexistência não-violenta entre todos os seres.

O Plano Global dos Biótopos de Cura
Biótopos de Cura são povoamentos-modelo para a investigação e manifestação da mudança sistémica, da matriz do medo para a matriz da cura em todas as áreas fundamentais à existência humana. Biótopos de Cura trabalham na geração de nova informação de cura global. Esta informação de cura consiste essencialmente na criação de confiança entre os participantes – confiança entre os povos, e entre as pessoas e os animais. Após cinco mil de anos de guerra, a existência de confiança não pode ser tomada como garantida; ela precisa de ser restabelecida através do alinhamento com determinadas directrizes éticas e sociais. Em condições de confiança, abrem-se novos canais de conhecimento. A confiança é o canal através do qual todo um mundo superior consegue comunicar connosco. Existem diversas correlações sistémicas na esfera da Matriz Sagrada. Por exemplo, a capacidade da humanidade resolver o seu tema do amor depende, entre outras coisas, da forma como interagimos com os ratos, as cobras, ou os vermes da horta. Os nossos problemas sociais não podem ser resolvidos sustentavelmente num mundo de matadouros, vivissecções e fábricas de peles. Sem uma mudança profunda de paradigma na nossa coexistência com todos os seres, não há Biótopo de Cura autêntico que possa surgir. Mesmo as melhores inovações no abastecimento de água, nutrição e energia terão impacto positivo muito limitado, a não ser que por trás delas exista um contexto social de confiança – acima de tudo, confiança entre os géneros. Esta é uma chave crucial no pacote de informação de cura global – como afirmei previamente, confiança é um poder de cura que liberta novas substâncias mensageiras no corpo da humanidade. Confiança entre os colaboradores exige uma grande pré-disposição para a verdade e um elevado grau de solidariedade.

Biótopos de Cura perseguem um objectivo global superior. É por isso que a sua colaboração ao nível global é necessária. Os milhares de grupos que actualmente percorrem caminho até outras margens, precisam de se orientar por um objectivo global, comum e mais elevado. A coerência trazida por um objectivo comum gera sucesso. É apenas nessa base que um movimento global para a criação de um novo mundo poderá surgir; um movimento que se ergue de forma a retirar força ao velho mundo capitalista, sem recorrer à violência. Lidamos com um conflito de forças que não será resolvido pela força dos números, do poder bélico ou financeiro, mas apenas pelo poder da informação. Assim que os primeiros Biótopos de Cura forem devidamente estabelecidos e operarem como foi descrito, algo mudará na Terra. A mensagem irá espalhar-se. Cresce assim a probabilidade de centros semelhantes emergirem noutros lugares. As pessoas percebem então que existem respostas concretas para tanto as questões materiais de abastecimento de água, alimento e energia, como para as questões sociais. Ninguém precisa de morrer de fome, sede ou frio neste mundo, e ninguém tem de se afogar permanentemente nas suas mágoas assim que utilizarmos este potencial que nos está acessível, e se deixarmos de permitir que as forças do capitalismo parem o nosso trabalho. Cada pedaço de terra, cada aldeia, cada bairro, pode ser transformado num Biótopo de Cura.

As pessoas perguntarão uma e outra vez como comunidades relativamente pequenas podem superar as grandes forças do capitalismo globalizado. A resposta é sempre a mesma – em ligação com a força universal da Matriz Sagrada. Na minha opinião, é importante que isto seja compreendido. É tão óbvio! Existe um poder mais forte que toda a violência. Sem isso, nenhuma planta poderia crescer, nenhum rebento poderia atravessar a camada de asfalto.

A mensagem do ‘grande plano’ precisa de ser ouvida. Para isso precisamos de novos colaboradores em todos os países e de eficiência na criação de redes digitais. O processo morfogenético transportará automaticamente informação assim que se alcançar uma determinada dimensão crítica. Nesse ponto, a informação espalhar-se-á pelo mundo tão rapidamente como as inovações de Silicon Valley, pois lidamos com informação que se encontra presente de forma latente em toda a parte. Gosto de comparar este processo com Silicon Valley porque acredito que existe uma relação próxima entre a tecnologia digital da actualidade e a tecnologia espiritual do futuro. Em ambos os casos, as mensagens são transmitidas de forma misteriosa; informação e imagens são enviadas para mundos sem fios, e objectos distantes são conduzidos por controlo remoto.

A visão dos Biótopos de Cura contém uma imagem intacta de vida que descrevi brevemente neste artigo. Se esta imagem é inserida num computador central, ela torna-se visível em todos os ecrãs. A tecnologia digital funciona desta forma; a consciência humana também; ela está ligada com todos os pontos de consciência humana numa ‘internet espiritual’. De forma a reconhecer a visão de cura, precisamos de encontrar um lugar dentro de nós onde ela possa ser percepcionada e recebida. Este é, em grande parte, um processo de oração meditativa e de visualização. É possível percepcionarmos uma determinada visão, apenas pelo facto de ela existir realmente. Cada momento em que ‘percepcionamos’ desta forma provoca e aumenta as probabilidades de manifestação. Assumo que as tecnologias espirituais serão desenvolvidas quase automaticamente nos futuros centros de paz, e que alcançarão muito para além das presentes capacidades digitais. A minha parceira, Sabine Lichtenfels, recebe novas instruções deste género quase todas as semanas. Todos os seres estão ligados à internet biológica; todos estão ligados com a mente da Matriz Sagrada e são consequentemente sensíveis à informação lá contida. O que me parece agora importante é que tantas pessoas quanto possível compreendam o sistema de informação da Matriz Sagrada e reconheçam as suas possibilidades. Existem potencialidades cujas dimensões nenhum movimento de paz conseguiu aceder.
Malta, Março 2016

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Literatura Posterior:

Terra Nova: Global Revolution and the Healing of Love
Dieter Duhm, Verlag Meiga, 2015
224p., €17.80, ISBN 978-3927266544

The Sacred Matrix: From the Matrix of Violence to the Matrix of Life
Dieter Duhm, Verlag Meiga, 2007
398p., €24.90, ISBN 978-3927266162

 

 

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