Caminhada pela Água Portugal

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Visões para a União na Bacia Hidrográfica

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A Caminhada pela Água (Walking Water) é um movimento e uma plataforma de ação que visa unir comunidades que partilham a mesma bacia hidrográfica, para que possamos aprender uns com os outros, construir e apoiar relações de cooperação entre bio-regiões, ouvindo os desafios e ideais em relativos à qualidade e ao abastecimento de água. Recentemente, no Sul de Portugal, a Caminhada pela Água em Portugal reuniu-se numa peregrinação.
Depois de 10 dias de caminhada, num espírito de escuta e visão, um grupo de 30 pessoas de Tamera, um Biótopo de Cura, juntamente com a sua rede de parceiros regionais, caminharam até ao oceano em Tróia – o destino final desta ação comunitária, educacional e cerimonial. A caminhada foi iniciada e guiada por Sabine Lichtenfels e Bernd Müller de Tamera e organizada por Aida Shibli e a sua equipa de Tamera. No círculo de parceiros e participantes, reuniam-se representantes de todas as faixas etárias, desde bebés com dois meses de idade até uma participante com mais de 70 anos.
Ao longo do nosso caminho, fomos recebidos em diversos locais: antigas escolas, centros culturais de comunidades locais, quintas de amigos e pavilhões desportivos; muitas vezes optando por dormir ao relento. Ao final da tarde, fomos quase sempre recebidos com uma imensa hospitalidade e abertura por parte dos habitantes locais. Começámos todos os dias cedo pela manhã com uma oração e pensamentos inspiradores partilhados por Sabine, iniciando depois a caminhada em silêncio, durante duas horas, nas quais fortalecíamos a consciência de estarmos juntos numa “Peregrinação Grace” – uma acção conduzida previamente por Sabine em diversos países. A meta era testemunhar tudo o que acontece dentro de nós e ao nosso redor, sentindo a conexão com a rede da vida e caminhando pela paz a cada passo e a cada fôlego.
“Para mim, estes foram os momentos mais importantes,” disse um peregrino. “Ao caminhar em silêncio, mergulhei profundamente na observação da paisagem ao meu redor, na sua beleza e na sua dor. Por vezes e quase chorando, pedi desculpa pelo que nós seres humanos fizemos à natureza; por outro lado há momentos de pura beleza e gratidão nos quais percebo que a cura ainda é possível.”
Frequentemente atravessámos o rio Sado e observámos como este surgia a partir de uma ribeira quase seca, que desaguava até um rio poderoso. Em Alcácer do Sal, depois de caminharmos cerca de 130 km, seguimos viagem de barco até chegarmos a Setúbal. A cidade com o seu grande porto, era outrora um centro próspero, combinando as riquezas de uma terra produtiva com os produtos do oceano. Avistámos diversas espécies de pássaros e peixes, nomeadamente flamingos. Ainda assim, a nossa esperança de encontrar golfinhos foi decepcionada durante a viagem de barco.
Foi a presença de golfinhos Roaz, que habitam a baia de Setúbal, que originalmente nos seduziu ao conceito desta caminhada. A imagem dos golfinhos apareceu na meditação de Sabine. Queríamos ver e sentir a ligação com eles desde o nosso sítio remoto, perto da nascente, até ao seu habitat. Como se transformará a paisagem, desde os campos secos que nos rodeiam durante o Verão até à vasta zona húmida que forma a última parte do ecossistema do rio?
Caminhar a bacia hidrográfica foi também uma inspiração oferecida por Rajendrah Singh, o “Gandhi da Água” de Rajastão, na Índia. Rajendra deu início a um movimento popular na sua terra natal que transformou toda uma paisagem desertificada em florestas e terra fértil. Durante a sua última visita a Tamera, Rajendra falou da importância de todos conhecerem a sua bacia hidrográfica, de se encontrarem com as pessoas e as relações naturais a montante e jusante, de se familiarizarem com a sua responsabilidade e o seu papel no ecossistema do rio: quando as pessoas de uma bacia hidrográfica trabalham juntas, quando percebem que cada ação gera impacto em todos, poderão então regenerar a natureza e viver novamente em abundância.
A nossa peregrinação começou na pequena ribeira que flui a partir do Lago 1, em Tamera, que rapidamente se perde de vista no terreno. Caminhámos ao lado do leito do rio que secou e testemunhámos o quanto a influência humana tem alterado e interrompido profundamente o caudal da água, fruto do sobre-pastoreio realizado ao longo do último século, das monoculturas e da construção de grandes barragens.
Logo no primeiro dia, encontrámo-nos com os presidentes de Colos e Relíquias, duas das nossas aldeias vizinhas. Estes partilharam detalhes sobre as suas preocupações relativamente à situação da água: o primeiro possui água subterrânea em abundância na sua freguesia; o segundo, no Verão, é forçado a recorrer aos auto-tanques para assegurar o abastecimento de água da freguesia durante o Verão. Ao invés de poderem gerir a sua própria água, ajudando-se mutuamente e partilhando os recursos, ambos são forçados a ligar-se com os sistemas de abastecimento ligados às grandes barragens. Depois de muitos meses sem chuva, a água da barragem do Monte da Rocha, por exemplo, tem agora uma qualidade muito fraca. A privatização da água deu origem a uma legislação que proíbe as aldeias de manter e utilizar os seus poços, tornando-as assim dependentes de água de baixa qualidade, a preços altos.
Bernd Müller de Tamera, especialista em água, consciencializou-nos repetidamente da abundância que ainda é possível gerar na nossa região. A tradição de cuidar da manutenção dos poços, de forma a assegurar a preciosa água potável, vive ainda em alguns dos habitantes locais mais idosos. Quando passámos por poços bem cuidados, mostrámos o nosso respeito por esta prática. Cada vez que nos deparámos com o sinal “Esta água não é controlada pela Câmara”, fomos relembrados do quão reduzida é a fomentação deste princípio; as pessoas não estão relacionadas com o abastecimento local de água subterrânea, as populações desligaram-se desta grande força de vida e, consequentemente, tornaram-se fragilizadas. (Como ouvimos no eco da resistência ao Dakota Pipeline, neste momento em ebulição nos EUA, no maior encontro de sempre dos povos indígenas desta área: Água É Vida!).
Foi perto de Alvalade que vimos pela primeira vez o fluxo de água que aguardávamos: o Sado; o leito do rio, deslumbrante e aparentemente natural. Mas a água que víamos não provinha de nascentes: era água residual proveniente das produções intensivas de arroz e de uma estação de tratamento de águas residuais. Ainda assim foi incrível ver a água fluir livremente, as árvores, plantas e animais que compõem o ecossistema ao longo do leito do rio.
Ao visitarmos a Associação de Regantes e Beneficiários de Campilhas e Alto Sado, percebemos que os rios são maioritariamente valorizados como bens para a agricultura industrial. Ao longo do ano, a associação fornece água a enormes monoculturas de tomate, azeitona, milho e arroz; sem as grandes barragens, estes projetos de cultivo não poderiam existir. Nesta visita, tentámos partilhar as práticas de retenção de água que temos vindo a desenvolver em Tamera e que são transmitidas por Bernd Müller em diversas partes do mundo: uma forma de abrandar a água da chuva e de a manter no solo, restaurando ecossistemas e aquíferos, gerando a fertilidade necessária às zonas florestais, florestas mistas, hortas e jardins. Os gestores e engenheiros ficaram positivamente impressionados, mas ambos sabíamos que estes dois métodos de gestão de água representam sistemas de organização social totalmente diferentes: um foca-se em produzir o máximo possível, o mais rapidamente possível e em exportar para onde quer que o mercado global consiga pagar, sem grande consideração pelo impacto futuro dessas práticas; o outro é um sistema de autonomia regional ao nível da alimentação e do abastecimento de água, numa conduta de cooperação regenerativa com a Natureza.
Caminhámos ao lado de minas de enxofre abandonadas (o enxofre é um componente precioso na produção de fertilizantes), ao lado de casas abandonadas entre monoculturas de oliveiras dependentes de irrigação, e ao longo de canais enormes que transportam água subterrânea até à indústria petroquímica situada na zona costeira. Sabine lembrou-nos: “Os métodos de globalização são os mesmos em todo o lado – seja na Colômbia, na Palestina ou em Portugal”. Independentemente dos enormes impactos resultantes destes métodos destrutivos, comoveu-nos frequentemente o poder e a beleza da Natureza que ainda pudemos encontrar intacta em locais remotos. A certo ponto, a floresta era tão densa que tivemos de rastejar durante uma parte do percurso e o rio era tão profundo que chegava ao nosso peito. Ao atravessar o rio, foi necessário caminhar cuidadosamente, carregando os bebés e as mochilas com os braços levantados.
Encontrámos amigos. Encontrámo-nos com pessoas de mais idade que nos locais mais remotos ainda mantêm os seus poços e as suas hortas, e que reagiram com entusiasmo ao nosso slogan “A água é um direito humano”. Encontrámo-nos com jovens que deixaram para trás a sua vida na cidade para cultivar uma pequena quinta no meio de uma paisagem predominantemente dominada por monoculturas. Encontrámo-nos com filhos de mineiros, em busca de uma nova perspetiva para as suas vidas. Encontrámo-nos com caçadores que se viam como protetores da vida selvagem. Encontrámo-nos com herdeiros de propriedades enormes que transformaram as suas quintas em espaços de encontro para visionários; que voltaram a implementar os princípios de permacultura, florestas mistas, arte e beleza na sua bio-região. Encontrámos aldeias que pareciam ter sido esquecidas pelo mundo e que ainda assim se encontram actualmente integradas na visão de uma bacia hidrográfica sustentável.
“Imagina que a nossa administração política não seria organizada de acordo com fronteiras, ideologias ou religiões, mas de acordo com bacias hidrográficas”. Quando ao final do dia, partilhámos como peregrinos as nossas percepções e visões, tanto entre nós como com os nossos anfitriões, imaginámos todo aquele conjunto de lugares e pessoas como diferentes pérolas de um colar belíssimo e de relevância vital.
Todos nós habitamos a mesma bacia hidrográfica; todos podemos tocá-la, é dela que beneficiamos e que servimos de diversas formas. Podíamos beneficiar muito mais uns dos outros. Se todos percebêssemos e cumpríssemos os nossos papéis no contexto do nosso serviço ao rio, de forma holística, poderíamos novamente viver as nossas vidas na presença de um rio saudável, com mais diversidade biológica e robustez.
Duarte Sobral, um dos peregrinos, paisagista e biólogo de Odemira, descreveu um cenário possível numa bacia hidrográfica:
“Os locais a montante poderiam encarregar-se de plantar florestas mistas saudáveis. Mais a jusante, a paisagem poderia desenvolver-se como zona de cultivo mais extensiva e diversificada, integrando árvores de fruto e uma mistura entre florestas e zonas de pastoreio. Na zona inferior do rio, com vastas áreas de solo fértil e grandes planícies, a produção de alimento poderia tornar-se mais intensiva, ainda que em culturas mistas e intercaladas com diversas árvores – árvores com raízes profundas que transportam a água dos aquíferos até à superfície, disponibilizando-a a todo o ecossistema. Nos pantanais a jusante, poderíamos encontrar salinas, pescadores, e a colecta de conchas e plantas especiais.”
Toda a abundância que anteriormente a bacia hidrográfica mantinha encontra-se refletida na cidade de Setúbal, onde as casas mais antigas revelam a riqueza e prosperidade do passado. Foi em Setúbal que os produtos do oceano e das terras férteis das zonas rurais foram comercializados, e onde o rio Sado formava uma viva rede de comunicação, interligando terra e mar com água, bens e informação.
Pela manhã de Segunda-feira, ao nascer do Sol, ligámo-nos com a meditação do “Círculo de Força”, interligando a nossa peregrinação e as nossas intenções com inúmeros grupos e pessoas espalhados pelo mundo. Enviámos as nossas orações, em especial para os nossos amigos na peregrinação “Walking Water” a decorrer na Califórnia, que se encontravam também a caminhar; para os nossos vizinhos em São Luís que também caminharam parte da sua bacia hidrográfica; para a caminhada “Women Waging Peace” em Israel-Palestina; e para a Colômbia, com o desejo urgente de apoiar o processo de paz. Nessa manhã, encontrávamo-nos num sítio chamado Porches, com o nosso amigo José Arantes, e experienciámos a dádiva que é podermo-nos sentar à volta de uma fogueira – o que há muito não tinha sido possível durante os meses da estação seca. Sabine convidou-nos para um círculo de partilha bastante enriquecedor à volta do fogo, onde bebemos das diversas percepções e visões do grupo. Estes são os momentos onde a esperança emerge – esperança que nos possamos interligar globalmente com pragmatismo, através das nossas redes, de forma restaurar e curar este mundo, transformando-o no paraíso que é suposto ele ser.
Foi num dia frio que entrámos a bordo do ferry que nos conduziu até ao destino final, a praia de Tróia. Assim que Sabine iniciou o ritual de encerramento, fomos saudados pela primeira chuva da estação. E assim que terminámos o círculo final de partilha, os golfinhos apareceram! Dezenas de golfinhos nadavam da baía até ao oceano, aproximando-se bastante da costa – muitos deles saudando-nos com saltos exuberantes. Recebemos esta experiência como uma benção final e uma mensagem: independentemente de toda a destruição e exploração, ainda estamos aqui; se cooperarmos, a restauração do ecossistema ainda é possível.
Obrigado pela vossa orientação, Sabine e Bernd. Obrigado Aida e a toda a equipa de organização, que nunca parou de criar milagres. Obrigado a todos os participantes, a todos os anfitriões e a todas as pessoas que, ao longo de toda a caminhada, nos proporcionaram água, café, alimentos regionais e biológicos, com sorrisos e com amor. Um especial agradecimento a Sebastião Antunes e Nuno Moreno pela música maravilhosa com que prendaram a nossa última noite.

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