Um Novo Campo da Mulher

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Excerto do livro: “Politische Texte für eine gewaltfreie Erde, 1992” (Textos políticos para um mundo não violento)

Women and men from the Tamera community dance within the call of “One Billion Rising” at the beach in Milfontes, Portugal, Photo © Simon du Vinage

Entrai num novo campo e, logo, novos sistemas, novas percepções, novas regras e novos poderes serão apropriados. Antigos medos perdem o sentido no novo campo porque o Todo ganha uma nova orientação e um novo objectivo.

Normalmente, se o novo campo não tiver origem a partir do sistema vigente ou da ideologia, mas sim a partir de um autêntico desenvolvimento espiritual e mental revela, então, uma potencialidade e um poder mais elevados de sobrevivência do que o antigo. Isto também é válido para o novo campo da mulher.

O antigo campo caracterizava-se pela comparação, rivalidade e submissão. Estava conectado com poderes de destruição e de auto destruição. O campo da mulher era historicamente condicionado por milhares de anos de supressão cruel, exploração sexual e destruição do amor. Este é um facto histórico da era patriarcal de guerra.

Normalmente, uma mulher que tivesse começado a amar, após algum tempo começava também a sofrer. Os seus poderes que na realidade queriam florescer no amor, começavam a definhar e a secar. Sob a pressão do sistema patriarcal, os conceitos de amor, casamento e fidelidade tornáram-se totalmente distorcidos. A história forçou a mulher a uma errônea fixação no homem, um campo onde tanto a auto-estima da mulher como o amor entre os géneros humanos teve como base um sistema de valores errados.

Podemos definir o campo como um padrão de informação espiritual e mental, consciente ou inconsciente, que conduz de forma similar o comportamento de todos os participantes desse mesmo campo.

A princípio, quando alguém começa a entrar num novo campo, os medos, as dúvidas e os mecanismos de defesa apoderam-se dele. Repentinamente, é-se muito mais fortemente confrontado com questões de amor, anseio, parceria e sexualidade do que antes. É como andar em cima de brasas. Quando alguém decide participar neste novo exercício em grupo, a princípio o seu interior rebela-se, tanto quanto o fogo é quente, doloroso, perigoso…

Porque deveria ser agora de repente diferente? Mas a informação que, em todo o caso, funciona provoca o milagre: todas a nossas células se adaptam à mesma. Ninguém fica seriamente queimado.

Precisamos agora de informação comparável para o novo papel da mulher no amor livre. Informação que se torna num poder de gerar campos, ao se ultrapassar a questão “isto funciona?”. Mas antes que consiga ultrapassar a questão envolvente e se torne conhecida, algumas mulheres têm de começar e ir bastante mais longe para que isso resulte de facto, sem medos de conflitos interiores ou de supressões secretas.

Vivemos numa época de transformação e deveríamos aceitar à priori que mudanças maiores são possíveis inclusive em nós mesmos. Assumo que, em breve, despenderemos mais energia em manter as antigas estruturas do que ao integrar processos de auto transformação.

As traumáticas questões das mulheres não precisam de ser perpetuadas. As mulheres têm a sua própria função no mundo que, acima de tudo, está para além de todas as questões de relacionamento. Quando uma mulher se inferioriza no amor, desconhece o seu actual papel. Quando uma mulher vai atrás de um homem, deixa para trás a sua própria evolução. À distância, todos estes processos são tão estranhos quanto a mulher também o é na sua forma e função arquetípicas enquanto poder orientador nas questões básicas do amor e da vida. Ela é muito mais a orientação para o homem do que o homem é para ela.

Através do seu papel evolutivo e através da sua conexão com a vida, ela tem um poder e uma universalidade diferente do que somente ser a parceira ou a namorada de um só homem. Se uma mulher se vincula exclusivamente a um só homem, então ou definha devido à sua frustração sexual, ou sufoca o homem com o seu maternalismo. Em ambos os casos, o excesso de poder interno inerente à sua natureza universal não pode ser contido.

Nenhuma mulher consegue numa relação para com um só homem, desabrochar o seu dom interior da sexualidade, poder no amor, habilidade em nutrir e cuidar da natureza que a criação lhe deu.

O seu poder sexual, a permanente presença da sua natureza sexual e desejo sexual são por si só um sinal de um carácter diferente.

Tomarei cuidado em não definir este carácter, caso contrário, programas desenvolver-se-ão novamente. Mas dedicarei inteiramente a minha alma masculina para despertar e apoiar a alma feminina no interior da mulher.

Por vezes, é uma anedota quando os homens fazem terapia. Se a mulher pudesse satisfazer plenamente o seu papel social, então, a terapia não seria mais necessária. Uma mulher, uma vez que encontre a sua identidade feminina e universal, é um local natural de aconchego para todo o homem. Uma mulher madura é uma orientação para a alma de qualquer comunidade funcional. Ela o é simplesmente pela sua presença autêntica.

Numa comunidade orgânica será, por exemplo, a professora do amor de muitos jovens, homens ou mulheres. Não porque tenha de satisfazer a sua própria dependência por jovens, mas porque é a sua função natural e ela é, naturalmente, requisitada nesse sentido.

Uma mulher consciente e autêntica é a autoridade natural para todos aqueles que têm desejo e para todos os investigadores. Esta autoridade não está baseada no poder ou na punição, mas no conhecimento, compreensão e, acima de tudo, na alegria sexual.

O homem, mesmo o homem do patriarcado, avaliou basicamente, mais ou menos correctamente a elevada função da mulher e teve os primeiros vislumbres da posição predominantemente social e política da mulher como resultado da sua função. As funções sociais e políticas decisivas de uma sociedade de vida orientada para a não violência, são muito mais incumbência da mulher do que do homem. A mulher tem a última palavra em todas as questões da comunidade, na verdade emocional, na cooperação com a natureza, na cura e no re-condicionamento da consciência. O homem tem a tarefa de a apoiar nisto e de estar “lá para ela”, como foi inversamente o caso no passado, mas não pode reivindicar uma mulher inteiramente para si. Claro que pode tentar, mas uma mulher inteligente não seguirá mais esta reivindicação apesar da sedução silenciosa que esta contém em si mesma. A antiquada doçura de uma cabana para dois era sempre na realidade a total submissão da mulher para o homem. A mulher, actualmente, sente um amor latente por este tipo de submissão. É o seu outro lado. No fundo do seu coração, ainda quer vincular-se a um homem, ainda quer satisfazer este antigo mandamento patriarcal do Antigo Testamento, quer ser inteiramente a serviçal do homem até ao ponto de abandono de si mesma, quer ser possuída por ele, ser comandada e dependente dele.

A teóloga Heide-Marie Emmermann descreveu no seu livro “Credo an Gott und sein Fleish”, esta profunda e impressionante incrível verdade.

Mas a mulher parará imediatamente com estas fantasias submissas, assim que tenha a possibilidade na vida real de assumir a posição que de facto merece.

A emancipação da mulher não é uma revolução contra o homem, é antes a descoberta do seu real sentido para o homem, para todos os homens, para todas as comunidades humanas e para todos os futuros Biótopos de Cura na Terra.

Não me refiro a mulheres jovens, mas a mulheres de trinta anos ou acima dos quarenta. Uma mulher aos quarenta entra no apogeu da sua vida: no auge da sua beleza corporal, do seu poder sexual e da sua função social e, manterá o seu apogeu e o seu corpo por décadas, se isto não for impossibilitado pelos preconceitos e falsas moralidades da sociedade.

Ela já viu através dos jogos e já deixou de lado todos os jogos da feminilidade, o jogo da inocência, o jogo da coqueteria, o jogo da sedução e rejeição, o jogo da desamparada, o jogo dos ciúmes; ela deixará de jogar o papel da rapariguinha ou da mãe. Há já muito que deixou todos estes jogos tal como a tolice da juventude. Porque continuaria a jogar estes jogos quando, de qualquer forma, com os seus dons femininos está tão perto da fonte da vida?

Neste sentido, quando as primeiras cinco mulheres construírem um novo campo da mulher muito rapidamente darão o sinal de partida para uma acção em cadeia em pelo menos mais cem mulheres. Quando não lutarem mais umas com as outras por causa de um homem, quando não correrem mais atrás do seu desejo feito de necessidades insatisfeitas, quando não tentarem mais secretamente copiar as suas mães, então, abrirão uma nova possibilidade de desenvolvimento feminino para todas as mulheres.

Elas mudarão profundamente o curso do futuro do destino feminino porque não são mais forçadas a congelar o seu poder sexual no meio da sua vida. Criarão um aspecto de vida que pertence ao núcleo de toda comunidade orgânica e que, a partir de agora, não pode mais faltar em nenhum projecto de futuro: todo o tema da sexualidade e cura. Este é o genuíno campo da mulher.

A mulher que está conectada com todos os poderes da vida através da sua natureza feminina, não representa primariamente a parceria e o relacionamento sexualmente orientados mas, em vez disso, uma sexualidade universal.

Seja como for, ela perdeu grande parte das suas actuais funções públicas na época patriarcal e, por conseguinte, teve que se retirar também no amor, para um papel artificial na sociedade patriarcal. Agora, enquanto o patriarcado decai, pode se reconectar com a mais elevada linha da sua vida.

Trata-se de uma histórica mudança de papéis, que está no cerne de uma nova ordem dos géneros humanos, no centro de um sistema natural orgânico de sexualidade livre.

Algumas mulheres, de qualquer forma, já estão a notar que são mais ou menos impelidas a desenvolver-se nesta direcção: já não vêem a possibilidade de encontrar o “homem forte” em cujos braços lhes é permitido inferiorizar-se. Elas têm de providenciar apoio para que o homem a quem desejam render-se, se possa desenvolver.

Têm de trazer o seu conhecimento feminino para apoiar as decisões societais e culturais. No amor, são o poder que lideram quer queiram, quer não e elas serviriam melhor todas as comunidades humanas ao decidir assumir este papel.

A criação de um novo campo da mulher é um novo passo na evolução do ser humano e na evolução da vida na Terra. Quando o poder natural da mulher estiver liberto do pensamento do relacionamento, todos os poderes do amor tenderão a ser libertados do pensamento do relacionamento. O novo campo atinge de tal maneira o ponto central da vida que tudo é afectado. Jardinagem, arquitectura, nutrição, educação das crianças, ciências naturais, ecologia, etc., terão significados diferentes. Os termos amor, verdade, fidelidade, confiança, pertença e lar ganharão um significado universal ao serem postos em sintonia com os diagramas da criação que são inerentes aos papéis dos géneros humanos.

As crianças serão criadas num contexto estável que não mais depende da disposição de dois pais. Os jovens receberão uma introdução à sexualidade que os salvará de desvios sinistros e fortuitos. Os adultos não necessitarão mais de se vincular a um só parceiro para alcançar a sua porção necessária de sexo e lar. E é precisamente por isso que poderão encontrar o seu “parceiro de vida”. Quero repetir que amor livre e amor íntimo não se excluem mutuamente, mas complementam-se e completam-se um ao outro.

Como todo o novo campo cujo tempo já chegou, o novo campo da mulher terá também muito mais poder e possibilidades do que o antigo, assim que o mesmo se tenha fortalecido e espalhado.

O antigo campo era conectado com poderes de destruição e de auto destruição. O novo campo cresce através da afirmação positiva e do cuidado com as energias mais essenciais da vida.

Aqueles que ficarem no antigo campo, não serão capazes de lidar com os desafios do novo tempo. Mas ninguém deve forçar-se a si mesmo, aqui e agora, a tomar qualquer decisão. Se o campo estiver de acordo com os mais essenciais interesses da vida da mulher e com a sua própria função na criação, então, ele prevalecerá morfogenéticamente.

Todas as mulheres que ainda se mantêm, mais ou menos abertas e despertas na vida, entrarão em ressonância com este campo. Em todas elas será desencadeada a possibilidade de uma mudança similar nos seus papéis; o termo “emancipação das mulheres” ganhará, finalmente, um novo significado universal positivo.

E conheço suficientemente bem homens, de forma a prometer que a emancipação dos homens virá no seguimento imediato, quando as primeiras mulheres tiverem assumido o seu grande passo. É um passo partilhado da realização humana mas, claramente, agora as mulheres têm de assumir o seu papel de parteiras.

Finalmente, uma palavra acerca da questão do relacionamento. Todas as coisas no mundo estão relacionadas umas com as outras. Terra, Sol e Lua estão relacionados uns com os outros de um modo específico. Esta relação satisfaz-se a si mesma naturalmente através do facto de que cada participante assume inteiramente a sua actual função. Esta função não é arbitrária porque está sempre conectada com o mundo enquanto um Todo.

As relações entre as entidades do mundo não são, portanto, privadas mas são de natureza cósmica universal. O mesmo é verdadeiro para as relações entre os géneros humanos. Eles estão também numa relação universal entre si, poderíamos também dizer transpessoal e esta relação decide por si só o quanto se podem aproximar, quanta distância precisam, quanta intimidade, sexualidade, parceria, etc. podem desenvolver.

Para além disso, não precisam de quaisquer contractos de parceria ou de garantias de amor. Claro que, também repetidamente irão apaixonar-se individualmente entre si. Isto faz parte do jogo da vida, mas eles não deixarão que o seu destino dependa mais disso, pois, têm funções e possibilidades complementares de amor que não se encontram limitadas aos relacionamentos individuais.

Uma mulher que segue o novo campo, jamais terá de se queixar devido ao seu autêntico esplendor, da escassez dos relacionamentos individuais como anteriormente, tornando-se no paraíso natural de todos os homens.

Quanto mais ela se posiciona na criação, sem medos devido ao seu novo papel, mais os homens podem também ultrapassar o seu medo da sexualidade profundamente entranhado. E quantos mais homens ultrapassarem o seu medo, mais conseguem abandonar as suas vaidades, o seu machismo e a sua necessidade de dominar.

Com o novo campo da mulher, emerge também uma possibilidade humana de desenvolvimento para os homens. Portanto, em nome de todos os homens, um apelo para as primeiras cinco mulheres: criem o novo campo de amor livre.

Tradução a partir do Inglês por Oriza Curado e Diogo Ruivo

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