O Concelho de Odemira como modelo regional europeu para a sustentabilidade…

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… e a possível contribuição de Tamera

O concelho de Odemira, são mais de 1700 quilómetros quadrados de pitorescas colinas entre a costa Atlântica e as grandes planícies do interior do país. O concelho de Odemira, são também 26 mil pessoas que, tendo em conta a migração rural-urbana, a crise económica, e a destruição da paisagem, procuram o seu caminho para o futuro – um caminho que preserve e aumente os seus recursos e a sua diversidade, e que ao mesmo tempo, estimule a economia e revitalize a região. A agricultura industrial e o turismo em massa há muito que deixaram de ser a única opção de negócio. Por mais utópico que pareça, Odemira possui todos os elementos para se tornar um modelo regional europeu: uma região que também mostra a outros países em crise económica e ecológica, como é possível desenvolver-se de forma sustentável. Parceiros de cooperação inesperados oferecem-se para encontrar um caminho para o futuro que não destrói o antigo, mas que o integra.

Um outro olhar
O concelho visto de cima, são colinas fluindo no horizonte, verde no inverno, amarelo-acinzentado no verão, coroado pelas ruínas de velhos moinhos, manchado com arbustos e árvores. E em nichos e dobras da paisagem, aldeias e lugares caiados de branco.
É lindo. E solitário. Faltam perspectivas para a juventude, faltam conceitos para uma economia próspera que simultaneamente cuide e preserve as comunidades, a natureza, e os recursos.
Imaginemos as povoações novamente cheias de vida, os vales com hortas e charcas, as aldeias com tecnologia ecológica para a recuperação energética e a produção alimentar, rodeadas por extensas florestas de variadas árvores de fruto, por onde pastam porcos e outros animais que ajudam a regenerar a terra dos danos causados pelas monoculturas do passado.
Quase que se conseguem novamente ver as ribeiras que aqui voltarão a fluir mesmo no verão. Quase que se conseguem ouvir os risos e as vozes dos muitos jovens que estudam precisamente o que o futuro mais necessita neste momento: o conhecimento sobre sustentabilidade ambiental e social, sobre a diversidade biológica e social, e principalmente, de que tudo está interligado. Nessa mesma região, poderia surgir uma nova forma de produção ecológica socialmente compatível, e novos ciclos económicos locais em cooperação com a natureza, incorporados no tecido social já existente, sob a aprendizagem mútua entre jovens pioneiros e moradores de longa data. Floresceriam bairros e comunidades com uma chance de futuro. Um sonho? Sim, mas um sonho realista. Talvez até mesmo o sonho da própria terra.

Tendo em conta a escassez de recursos, a falência dos sistemas bancários, e as alterações climáticas, é evidente que as crises globais vão continuar a aumentar no futuro. A procura de conhecimentos sobre sustentabilidade ambiental, segurança do aprovisionamento a nível regional, e criação de comunidade vai crescer proporcionalmente. O capitalismo globalizado no seu poder destrutivo imposto com grande força dentro da União Europeia, anseia por uma alternativa. E cada vez mais pessoas trabalham nesse sentido.
O governo espanhol quer oferecer aldeias inteiras, desde que os novos investidores consigam demonstrar que têm um conceito para o desenvolvimento saudável da região. Nalguns países, há presidentes de câmara que começam a defender o estabelecimento de eco-aldeias na sua região, pois o seu efeito positivo sobre o desenvolvimento social, económico, e ambiental, tem sido repetidamente demonstrado. Devido às suas condições especiais e vantagens de localização, o concelho de Odemira pode estar na frente desta tendência global.

História e futuro de um sonho
Há cerca de sete mil anos, culturas tribais seminómadas deixaram uma herança de monumentos megalíticos no Alentejo. Pelo que sabemos hoje, o seu modo de vida era pacífico, sustentável, e comunitário; estavam profundamente conectados com a terra e todos os seres, e cuidavam do lado sagrado da vida em si. Apesar de todas as conquistas e mudanças de governo de impérios e reinos que se seguiram, o seu sonho manteve-se vivo. Ao longo do tempo, houve sempre pessoas e grupos corajosos e inspirados que almejaram concretizar esse sonho. O modo suave de interacção com a natureza pelas culturas tribais deu origem a uma economia da diversidade adaptada à paisagem, o chamado Montado, que se manteve até hoje em dia relativamente igual. Os últimos cem anos, com a ditadura, as campanhas do trigo, as regulamentações da União Europeia, as grandes barragens, e a centralização, não conseguiram destruir o sonho. Mas destruiram gravemente a terra.

Hoje em dia, o munícipio de Odemira enfrenta mais do que nunca o desafio de encontrar um caminho saudável para o futuro. As tentativas de tornar a região rentável com o turismo de massa ou o negócio agrário, como sucede em muitas regiões do sul da Europa, parecem apenas fazer sentido à primeira vista. O seu sucesso pontual tem custos sociais e ambientais demasiado elevados: ambos os caminhos levam a uma liquidação da terra, os lucros beneficiam apenas em parte os moradores; o cultivo intensivo leva à degradação, à erosão, e à exploração excessiva da água, da terra, e dos recursos; e muitos milhares de trabalhadores agrícolas vindos de terras distantes permanecem na região como emigrantes na miséria, sem qualquer perspectiva para si, nem para os seus filhos.

A terceira via
O concelho de Odemira e os seus habitantes sempre preferiram seguir o seu próprio caminho para preservar e aumentar a riqueza original. Esta riqueza constituída pela diversidade cultural, de abundância de chuva, exposição solar, paisagem diversificada, especificidade das condições climáticas nas áreas costeiras, e também, pela experiência ainda existente e a memória do povo no que diz respeito à subsistência, ao espírito comunitário, à entreajuda, e aos conhecimentos tradicionais.
E há mais ainda a favor do Concelho de Odemira. Nos últimos anos, tem havido um aumento de jovens e pessoas com bom nível de formação a optarem por se estabelecer na região, em busca de uma perspectiva de vida mais atraente e auto-suficiente que já não encontram nas grandes cidades. Juntamente com imigrantes de outros países, criam projectos de investigação sócio-ecológicos, e projectos modelo de menor ou maior escala de modos de vida alternativos. Projectos como a o Movimento de Transição em São Luís, ou o Centro de Investigação para a Paz em Tamera, Relíquias, com os seus programas ecológicos e sociais, atraem para a região especialistas internacionais em sustentabilidade. Estes abrem caminho ao conhecimento actual, e a um capital de experiência capaz de concretizar visões completamente novas para o Concelho de Odemira.

Água é vida
No centro de cada regeneração, está uma boa gestão dos recursos hídricos. É o pré-requisito para o crescimento e o desenvolvimento. A gestão das águas a nível global continua a seguir princípios errados. Os rios são represados e canalizados, a água da chuva rapidamente escoada, as superfícies impermeabilizadas. Assim, a chuva já não penetra no solo , mas corre e arrasta consigo partes essenciais do solo. Leva a inundações no inverno e a secas no verão, causa erosão e o empobrecimento dos solos, vai desde a perda de biodiversidade até à desertificação. Os efeitos são visíveis à escala global, e também no Concelho de Odemira. As fontes secam, muitas freguesias são abastecidas por tanques, os agricultores acabam por ter de abater os seus animais. No verão de 2016, cerca de 80% do território português sofreu de seca severa ou extrema. Entre 5 e 6 mil bombeiros apagaram 200 a 300 fogos diariamente, 1000 a 2000 veículos e mais de 100 helicópteros estavam constantemente em acção. As grandes barragens não são a solução, pelo contrário, reforçam o problema da seca dos rios e dos solos.

Durante a Cimeira Mundial do Clima COP21 em Paris, vários especialistas internacionais em água, como Michal Kravcik da Eslováquia, chamaram a atenção para a constituição de um Plano de Acção Global. Segundo eles, a água é o elo que falta no debate sobre o clima. A água da chuva, que por causa da impermeabilização dos solos, da desflorestação, e da drenagem, já não penetra no solo mas flui para o mar, é mais responsável pela alteração dos regimes de pluviosidade, das ondas de calor, e do aumento dos níveis do mar, do que anteriormente se pensava. Por isso, são medidas simples, como a colecta da água de chuva em vários pontos do planeta, que podem contribuir decisivamente para travar as alterações climáticas.

Odemira pode vir a estar na vanguarda desta tendência. A paisagem de retenção de água em Tamera mostra como tal pode ser alcançado. De forma descentralizada, são desenvolvidas várias acções para armazenar a chuva directamente no solo. A água volta a preencher os aquíferos, e as águas subterrâneas são recuperadas alimentando as plantas e as hortas. Também é com a vegetação bem hidratada que se ajuda a proteger os solos dos incêndios. E desta forma, com o trabalho correspondente, é possível devolver a fertilidade aos solos. Isto pode ser reproduzido de forma semelhante em todo o distrito. Seria uma das condições para a sustentabilidade e para a prosperidade ecológica, económica, e social.

Odemira preenche todos os requisitos para se tornar a primeira região modelo de formação para o desenvolvimento sustentável na Europa.
• uma região que implementa os objetivos de sustentabilidade da ONU em modelos descentralizados;
• uma região com erosão muito reduzida através da gestão descentralizada dos recursos hídricos;
• uma região que cultiva durante todo o ano, e em modo de produção biológico, grande parte dos seus alimentos, que os transforma, e que comercializa os excedentes como produtos regionais;
• uma região que substitui as plantações de eucaliptos por árvores de fruto, ou seja, por paisagens extensas, altamente produtivas e ‘comestíveis’ – o Montado Novo;
• uma região de autonomia energética, que satisfaz as suas próprias necessidades energéticas de forma descentralizada e de fontes renováveis, e que pela abundância de exposição solar se torna num Centro de Investigação de Energias Alternativas;
• uma região com o seu próprio ciclo económico, em que pelo menos parte das receitas contribui para o desenvolvimento da região;
• uma região que oferece lugares de formação e emprego numa indústria sustentável e verde, em harmonia com a natureza;
• uma região que prova que os refugiados económicos não vivem confinados em guetos sociais, mas que são integrados em aldeias onde desenvolvem competências para a reconstrução económica e ecológica dos seus locais de origem;
• existem muitas ideias, mas no âmago está uma região na qual vivem jovens que contribuem para a revitalização das aldeias, e onde os mais velhos recuperam a sua energia vital, porque tanto eles como os seus conhecimentos são reconhecidos.

Não é só Portugal que precisa de tais exemplos de sustentabilidade económica. Países como a Grécia, a Espanha, e a Itália, usufruiriam de uma posição completamente diferente na União Europeia se pudessem demonstrar que a descentralização e a autonomia regional não só são possíveis, como também beneficiam o país e as pessoas.
Uma região modelo para a sustentabilidade, para além das suas praias, torna-se também extremamente atraente para os viajantes e para os turistas. A rota sul do Caminho de Santiago que passa, entre outros, por Odemira, Relíquias, e pelo Vale de Santiago, e que hoje é pouco utilizado, poderia vir-a-ser um caminho de peregrinação por uma região europeia sustentável e atrair anualmente milhares de visitantes e caminhantes que enchem os novos albergues, as pousadas, os cafés informativos, e ainda, os restaurantes e comércios já existentes.
Parece inacreditável, mas os conhecimentos e os recursos já se encontram disponíveis no concelho. E enquanto projeto modelo na região, Tamera está à inteira disposição para cooperar nesse sentido.

Tamera como modelo e centro de formação para a prática da sustentabilidade
Tamera pode desempenhar o papel de centro de experimentação e formação de estratégias para a sustentabilidade regional nas áreas da arquitectura paisagista, da água, da alimentação, da economia, e da criação de comunidade. Nesta ‘Universidade’ alternativa, não se trata apenas de conhecimentos teóricos. Aqui, os estudantes podem vivenciar e pôr diretamente em prática os conhecimentos adquiridos.

O que é Tamera?
Em 1995, a teóloga e embaixadora da paz Sabine Lichtenfels, o sociólogo e psicoterapeuta Dr. Dieter Duhm, e o físico e músico Rainer Charly Ehrenpreis, procuraram um terreno para a criação de um projecto comunitário de pesquisa internacional para a paz. Após vários anos de preparação na Alemanha, queriam reunir os conhecimentos previamente obtidos num modelo visível e habitável. A ideia era tornar-se num centro para as grandes questões do nosso tempo, para a paz e resolução de conflitos, para a sustentabilidade ambiental e social, para a cura no amor, para a criação de comunidade, de economia justa e de educação holística. No sul de Portugal, agradou-lhes o espaço aberto, o potencial cénico, e a abertura da vizinhança. Duas décadas depois da revolução, tinha-se aqui revelado um espírito hospitaleiro e aventuroso. Um pequeno grupo começou com a construção deste modelo na remota Herdade Monte do Cerro, perto de Relíquias. Os vizinhos e comunidades locais ajudaram sempre que necessário. Logo, foram-se juntando cada vez mais pessoas.

Hoje, cerca de 170 pessoas trabalham e estudam em Tamera o ano inteiro. Uma parte da visão já foi concretizada. Existem departamentos de investigação para a gestão natural dos recursos hídricos, para a produção sustentável de alimentos biológicos, para a autonomia energética, para a arquitectura moderna em barro e construção leve, para a economia comunitária, para a escola livre, e para a formação de comunidade. As transformações do terreno estão à vista. O que antes era uma área ressequida no verão, é hoje atravessada por charcas e lagoas cheias de peixes, nas margens das quais abundam frutas e legumes durante todo o ano. Foram plantadas florestas mistas. Animais selvagens como a lontra e o javali, e também muitos pássaros estabeleceram-se novamente. O conhecido agricultor e visionário ecológico austríaco Sepp Holzer, aconselhou a comunidade de Tamera na construção da paisagem de retenção de água. No centro do terreno surgiu, em cooperação com o famoso geomante Marko Pogacnik, um círculo de pedras moderno inspirado no Cromeleque dos Almendres, situado na região de Évora. Um lugar de força e ponto de encontro da comunidade que presta homenagem à herança cultural original do país.

Ergueram-se várias construções modelo ecológicas em terra, como o auditório ‘Aula’ com capacidade para 400 pessoas – o maior edifício em fardos de palha da Península Ibérica construído juntamente com o ‘Professor Adobe’ Gernot Minke da Alemanha. Estão já projetados outros espaços de reunião, de estudo, e de alojamento, edifícios residenciais, e também um Hall Universal, que neste momento aguardam pela licença de construção. Para próximos desenvolvimentos, Tamera está a trabalhar em conjunto com o concelho de Odemira num plano sustentável de ordenamento do território.

O objetivo de Tamera é de construir uma alternativa ao capitalismo global juntamente com os seus parceiros de cooperação. Assim será possível observar a pequena escala como um conjunto de pessoas pode viver o seu quotidiano em cooperação com a natureza. Como é possível cobrir as suas necessidades básicas de energia, água, e alimentação, em ciclos económicos regionais e regenerar paisagens danificadas. Como as crianças podem crescer em segurança, e como o amor entre parceiros é inesgotável. Tamera está em vias de se tornar um lugar de formação mundial para estes assuntos. Milhares de jovens adultos de muitos países do mundo, incluíndo do hemisfério sul, vêm todos os anos para aprender e ajudar nas diferentes áreas de investigação.

Tamera é uma das eco-aldeias mais conhecidas no mundo, e membro ativo da Rede Global de Ecoaldeias (Global Ecovillage Network’ -GEN). No âmbito do ‘Campus Global’, colaboradores de Tamera acompanham o desenvolvimento de comunidades em regiões de crise, como na Palestina e na Colômbia, e também em favelas no Brasil e no Quénia. Especialistas de Tamera deslocam-se como consultores e oradores a vários pontos do planeta. Inversamente, especialistas em várias disciplinas vêm a Tamera para partilhar os seus conhecimentos em simpósios e seminários. Universidades de vários países, iniciativas de paz, bem como organizações humanitárias, cooperam na concepção de novos conceitos de ajuda e de sustentabilidade, para os quais Tamera se propõe como campo experimental.

Esta experiência pode e deve igualmente ser utilizada na região. Com base nas seguintes áreas, queremos exemplificar quais os projectos regionais que através desta cooperação podem emergir no Concelho de Odemira.
PROPOSTAS PARA A CRIAÇÃO DE UM MODELO REGIONAL EUROPEU PARA A SUSTENTABILIDADE
1. A regeneração da paisagem através do Montado Novo
Uma grande parte da paisagem de Odemira foi afectada devido ao desmatamento da vegetação original, às monoculturas e plantações intensivas, e à gestão incorreta dos recursos hídricos. É doloroso observar, ano após ano, a crescente desertificação, e ver tantos montes com plantações de eucaliptos, que não têm outro uso senão a produção de papel. As plantações revertem em maioria para empresas que conduzem à destruição desta paisagem à distância. Que desperdício de preciosos recursos!

Os métodos tradicionais de produção do Montado estão praticamente extintos, e eram os mais adequados à paisagem. Eram sustentáveis, extensivos, economizavam água e abasteciam as pessoas com bens alimentares essenciais, ao mesmo tempo que protegiam os solos da exposição solar excessiva e da evapotranspiração. Os mais velhos recordam-se que até ao início do século passado apenas era necessário importar ‘sal e ferro’. Todos os outros produtos eram produzidos no Montado. Também é dado cada vez mais valor ao Montado a nível internacional. Em 2012, foi candidato a Património Mundial da Humanidade da UNESCO.

É com base nesta experiência que surge o Montado Novo, igualmente extensivo, mas renovado como sistema complexo de cultivo misto mais eficiente que protege a biodiversidade e as reservas de água.

Porcos e outros animais de pastoreio em pastagem intensiva mas provisória, semelhante ao exemplo dos rebanhos, regeneram os solos e a vegetação, como demonstra o Método do Planeamento de Pastoreio Holístico (Holistic Planned Grazing) de Alan Savory. Produtos possíveis do Montado, tendo em conta o bem-estar dos animais criados ao ar livre, incluem as castanhas, as amêndoas, as nozes, as frutas, as ervas, as azeitonas, e as bolotas, bem como a cortiça, a resina, e a lenha. Ao mesmo tempo, emergem abundantes relações simbióticas com o campo e a agricultura, apenas pelo uso de fertilizantes orgânicos, a apicultura, e a criação de pequenos animais na orla da floresta, bem como a regulação natural de pragas através da salvaguarda da fauna entomófaga.

Alfredo Cunhal Sendim, o conhecido agricultor biológico de Montemor-o-Novo, trabalha há muitos anos com este conceito, e resiste com sucesso à tendência para a especialização e intensificação da economia agrícola. Em Tamera, os montes são novamente arborizados em culturas mistas. Porcos e cavalos são postos ao ar livre em cercas consoante as necessidades do terreno, e assim contribuem para melhorar a estrutura dos solos e preservar a diversidade vegetal.
Com o Montado Novo, a conservação da natureza e a agricultura entram numa nova parceria. O agricultor passa a ser um conservador da paisagem. A paisagem atractiva é também adequada para o turismo sustentável, e permite consultar e beneficiar da experiência e dos conhecimentos das gerações anteriores. As áreas costeiras são consideradas pelos climatólogos como regiões estratégicas. Se as plantações de eucaliptos fossem substituídas por culturas mistas utilizáveis, como no Montado Novo, então os ciclos da água de toda a Península Ibérica voltariam a fluir. É o que demonstra incontestavelmente o meteorologista espanhol, Professor Millán Millán após trinta anos de investigação. Assistiríamos então à diminuição das condições meteorológicas extremas, como são as ondas de calor e as chuvas intensas.

2. As paisagens de retenção de água e a gestão descentralizada de águas residuais
A reflorestação em cultura mista, como referido anteriormente, é parte essencial na paisagem de retenção de água, sobretudo nas regiões estratégicas junto à costa. Uma floresta saudável e o seu solo rico em húmus armazenam a água da chuva de forma eficaz e estimulam a circulação local de água através da absorção da água e da evaporação, que por sua vez, repetem incessantemente este ciclo de retenção da água e da evaporação, o que é crucial para a estabilidade do desenvolvimento climático.
Outras medidas, paralelos aos socalcos, são as valas à curva de nível (“Swales”); as linhas-chave; a construção de terraços, tal como a construção de charcas e lagoas de retenção de água, que já são símbolos de Tamera.

A variedade de medidas abrange diferentes oportunidades de geração de receitas. Da horticultura nos terraços, o cultivo de plantas aquáticas, e a piscicultura, às zonas de lazer e a instalações desportivas. Existem atualmente exemplos equivalentes na Andaluzia e na Estremadura.
A construção da paisagem de retenção de água em Tamera mostra que a terra árida pode voltar a regenerar-se completamente num curto intervalo de tempo. O objetivo é de não deixar que a água da chuva saia do terreno, mas que em vez disso se transforme em água de fonte mineralizada. O líder da equipa de Ecologia, Bernd Müller, tornou-se entretanto num procurado especialista em zonas de crise, e aconselha organizações humanitárias e universidades em Portugal, Espanha, Israel, Palestina, Haiti, Quénia e Colômbia, na reconstrução de circuitos de água saudáveis.
Os ecossistemas de zonas húmidas (‘Wetland Ecosystems’) baseiam-se no mesmo princípio para o tratamento descentralizado de águas residuais. Cada município ou comunidade, cada instalação industrial, e cada exploração agrícola pode, através da criação de zonas húmidas artificiais, limpar as suas águas residuais em profundidade, de uma forma económica e simples . Assim, pode criar áreas de lazer atrativas, e outras de produção de pastagens, piscicultura, floricultura, e ervas aromáticas e medicinais. Existem inúmeras experiências comprovadas realizadas em diversos países.

Um local de ensaio conforme planeado e implementado em conjunto com especialistas de Tamera, acompanhado por universidades e meios de comunicação, como por exemplo, um novo ‘Parque das Águas’ ou zona húmida para a limpeza de águas residuais de Odemira ou de Vila Nova de Milfontes, poderia ser um projeto modelo que mereceria a atenção para lá dos limites do concelho. A aplicação destes projectos-piloto em vários pontos do concelho, pode contribuir para atenuar os efeitos das alterações climáticas e inverter a desertificação.

3. Alimentação – produção de alimentos biológicos e auto-suficiência regional
No mercado municipal de Odemira, que há poucos anos ainda costumava estar bem lotado, apenas se encontram duas ou três bancas em funcionamento. Hoje em dia, compram-se nos supermercados, legumes vindas de Espanha ou da Holanda. Numa região que antes se abastecia quase completamente a si própria, são hoje importados 80% dos produtos alimentares. Não é porque o país deixou de ser fértil, mas por não estar previsto no conceito da União Europeia. Como é sabido dos gestores das culturas intensivas de produtos hortícolas na área costeira, o clima ameno é o melhor para a produção de alimentos. Segundo Ferry Enthoven, gerente da empresa holandesa de agricultura intensiva de hortícolas Atlantic Growers, em São Teotónio, ‘o Concelho de Odemira tem condições climáticas excepcionais para o bom desenvolvimento das plantas’.

O Concelho está predestinado a tornar-se uma região modelo para a auto-suficiência alimentar regional com uma grande diversidade de produtos saudáveis. Também é possível produzir o ano inteiro, tendo em conta a gestão natural dos recursos hídricos. O que dantes era laborioso e árduo, pode hoje, através de novos conceitos de agricultura biológica, ser organizado mais eficazmente. O que inclui os bancos de sementes regionais, o cultivo dos montes e terrenos em policultura, métodos como o ‘Bio-Intensive’, simbioses no âmbito do Montado Novo, reflorestação mista, e irrigação automática gota a gota.

Especialidades regionais de marca , produzidas em modo de produção biológico em Odemira, são excelentes mercadorias para as lojas especializadas e os restaurantes de fora e dentro do país. Desta forma, voltam a abrir empresas de transformação, a economia local é impulsionada, são criados novos postos de trabalho, os mercados locais voltam a encher-se, os pequenos produtores podem viver do seu trabalho, e o concelho ganha mais autonomia.
Tamera é exemplo disso a pequena escala. Um grupo de cerca de quarenta pessoas no interior de Tamera alimenta-se exclusivamente de produtos regionais e sazonais, e experimenta diferentes alternativas com velhos e novos métodos de transformação alimentar. Além disso, para aliviar a pressão das constantes alterações das condições do mercado, Tamera celebra contratos fixos com agricultores biológicos locais.

4. Energia – utilização descentralizada de fontes de energia renováveis
Face à falta de recursos de energia fóssil, é apenas uma questão de tempo antes que a energia solar predomine em Portugal e no mundo inteiro. E não apenas a energia fotovoltaica. Há toda uma geração de investigadores a desenvolver sistemas com lentes e espelhos em busca da autonomia de energia solar descentralizada. Assim, em complemento de sistemas inovadores de biogás, também as aldeias remotas teriam condições de produzir a sua própria electricidade e energia para o aquecimento, para cozinhar, e para o bombeamento de água . Dependendo do método utilizado, os excedentes poderiam ser distribuídos na rede pública, ou então armazenados através de novos sistemas regionais – térmicos, físicos ou químicos. Face à escassez de recursos a nível global, esta tecnologia terá cada vez mais procura no futuro. A tendência é também de passar do fornecimento centralizado de energia para sistemas de pequena escala, operados e mantidos pelos cidadãos ou por uma equipa de funcionários. Na Europa Central, existem muitos exemplos de comunidades que fundaram o seu próprio estação de energia, criaram novos postos de trabalho, e com os lucros obtidos, puderam desenvolver as estruturas das comunidades. Nos Estados Unidos da América, a ideia de redes eléctricas descentralizadas está cada vez mais difundida. Esta poderia também ser um incentivo interessante para jovens empreendedores portugueses.

O Sul de Portugal é a região maior exposição solar da Europa, e o Concelho de Odemira o local ideal para acolher um laboratório do futuro, uma espécie de Silicon Valley da investigação de energias descentralizadas. Imaginemos empresas modelo para o processamento de alimentos e especialidades biológicas e locais, abastecidas por água e gestão natural de resíduos , e tudo produzido com energias renováveis! Uma experiência piloto como esta chamaria certamente a atenção e o apoio da comunidade internacional.
No seu campo de ensaio da Aldeia Solar, Tamera testa tecnologias de relevância, como o Espelho Scheffler, as Mini-Unidades de produção de biogás, diversos fogões solares, e até um sistema de espelhos de alta tecnologia combinado com o motor Stirling e painéis solares.

5. Indústria ecológica com economia do bem comum
As estratégias industriais atuais caracterizam-se pela sustentabilidade e pelos sistemas de reciclagem, a começar pela selecção de matérias-primas que são inteiramente recicláveis. Com conceitos como o Cradle to Cradle não resultam nem resíduos nem poluentes, mas tudo se transforma em recursos para outras produções. Juntamente com conceitos económicos e sociais, como o da economia do bem comum, indústrias à dimensão humana poderiam promover a região e a sua riqueza real através do processamento de produtos regionais tais como a cortiça, o azeite, a cerâmica, o medronho, os cereais e outros produtos alimentares, e assim criar postos de trabalho e cursos de formação no concelho.

6. Comunidade – Revitalização das aldeias
O sonho do concelho é que as suas aldeias floresçam novamente, que as empresas e as escolas reabram, que os jovens regressem, que os mais velhos se sintam novamente úteis e valorizados, que se formem cooperativas que possam oferecer os seus produtos e serviços. Hoje em dia, já se encontram ocasionalmente nas aldeias um novo género de boa vizinhança e apoio recíproco entre residentes estabelecidos e recém-chegados – passos importantes para a revitalização das comunidades nas aldeias. Este processo requer dedicação pessoal e espírito de abertura por parte de todos os intervenientes. Mas requer também conhecimento social.

Ao conceito de uma região modelo sustentável pertence o conhecimento do desenvolvimento de comunidade, da resolução de conflitos, e da tomada de decisão, pois as melhores tecnologias ecológicas não valem nada se os membros da comunidade não se entenderem entre si. Não é por razões económicas que a maioria das comunidade não é bem sucedida, mas devido a questões pessoais. Acabam quando os seus membros não são capazes de falar sobre as coisas que mais os incomoda. Cria-se um fosso, um muro de silêncio por trás do qual ninguém se sente confortável. A comunidade de Tamera acumulou já mais de 30 anos de experiência em como dar voz e criar pontes em grupo, como criar transparência em temas como o amor, o desejo, o sagrado, a censura, a inveja oculta, e a raiva. É esta mesma radicalidade e verdade entre uns e outros que atrai os jovens e lhes dá confiança.

Uma região modelo também encontra caminhos para integrar de forma adequada os numerosos refugiados do mundo inteiro que vivem aos milhares no concelho, sem perspectivas e sem dignidade. Formas de lhes oferecer possibilidades de formação e postos de trabalho, de os ajudar a sair dos guetos sociais. As aldeias de inclusão em Itália, baseadas no modelo de Riace, demonstram como se pode transformar a necessidade num sucesso. Naquela região, os refugiados ajudaram a revitalizar as aldeias e a reconstruir sectores económicos falidos. Tais aldeias de inclusão poderiam oferecer os seus conhecimentos às pessoas de zonas afectadas pela pobreza, para que a partir daí soubessem como reconstruir os seus locais de origem. Este seria um contributo essencial para a resolução de um problema planetário.

7. Escola na aldeia
É um ciclo vicioso. Quantas mais famílias deixam o concelho, mais escolas fecham. Quantas mais escolas fecham, mais famílias partem. As crianças que ficam, fazem diariamente muitos quilómetros para ir para escolas com turmas sobrelotadas, que por sua vez também lutam pela sobrevivência. Nessas escolas, as aulas não estão direcionadas para as vivências do quotidiano, mas exclusivamente para o programa escolar e o plano de desempenho nacional. Por mais esforços genuínos da parte dos professores, é retirada às crianças a sua curiosidade natural e o gosto pela aprendizagem. Como numerosos estudos demonstram, as crianças ficam alienadas das suas vidas e da que levam com os seus pais. Muitos pais já não querem isso. Nos últimos anos, as redes para a educação escolar alternativa em Portugal e no Concelho de Odemira têm estado a trocar opiniões e planos para resolver a triste situação das escolas.

Uma região modelo para a sustentabilidade pode contar com o regresso de muitas jovens famílias que voltam a precisar de escolas para as suas crianças. Isto é, escolas que não ensinam apenas o conhecimento que está nos livros, mas que também facultam experiências vividas que estimulam o gosto pela aprendizagem das crianças. Escolas que, por exemplo, dão aulas na padaria ou na oficina da aldeia. Há décadas que a famosa Escola da Ponte, no Grande Porto, tem feito excelentes experiências desta natureza.

Com base nesse modelo, está prevista a construção de uma Escola Internacional em Tamera, a Escola da Esperança. Famílias de differentes lugares já mostraram interesse em inscrever as suas crianças nesta escola. Algumas até esperam mudar-se de Lisboa para o Concelho de Odemira por esta razão. Quem sabe um dia, estes novos conceitos de educação escolar ajudarão a reverter o êxodo rural e o despovoamento do Concelho.

Perspectivas
Perspectivas reais de futuro emergem fora das grandes cidades. Regiões autónomas ligadas a redes internacionais que baseiam a sua força na biodiversidade, na cooperação com a natureza, e na solidariedade entre as pessoas são, a longo prazo, mais sustentáveis e respondem melhor aos desafios atuais que os grandes sistemas centralizados. Jovens de todas as camadas sociais rompem com o sistema vigente e procuram possibilidades de formação que os possam preparar para este futuro.

Imaginemos que os responsáveis do concelho, os cidadãos, os especialistas em projetos alternativos, os representantes de universidades e de programas da União Europeia, e também convidados internacionais, se sentam à mesa e traçam os primeiros passos!

Primeiro, surgem aqui e ali pequenos modelos. Pouco a pouco, são elaborados e implementados conceitos para toda a região. Esta simples notícia despertaria a atenção a nível internacional e atrairia pessoas e apoio financeiro. Muitos dos jovens que hoje ainda saem do país para procurar trabalho, voltarão a encontrar coragem para apostar em Portugal. Odemira ficará conhecida pelas tecnologias ecológicas aqui desenvolvidas, e pelos seus produtos locais originais, produzidos em novas cooperativas e em velhas quintas. Se quisermos, podemos tornar este sonho real.

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